EDITORIAL
O caminho está à nossa frente
Cerca de 50 pessoas, vindas de dez países das margens do Mediterrâneo, aceitaram o desafio de irem ao encontro umas das outras para viverem e reflectirem juntas durante quatro dias sobre uma preocupação comum: a situação e o futuro dos mais pobres. Isto passou-se em fins de Setembro de 2005, no centro La Baume, em Aix-en-Provence (França), aquando do seminário “Contribuição das famílias muito pobres para o diálogo intercultural na sociedade de informação”. Já lhes tínhamos falado desse seminário no número 61 da “Carta aos amigos do mundo”.
Quando se dirigiu aos participantes, Eugen Brand, Delegado Geral de ATD Quarto Mundo, sublinhou o que estava em jogo:
«O caminho que se abre diante de nós é feito de interrogações e de preocupações que precisamos de partilhar convosco. A vossa experiência de vida, de acção, e as vossas reflexões vão permitir-nos aprofundar essas questões. (...) Neste momento em que, no mundo inteiro, todos lembram a importância da participação, saberemos nós qual a autêntica participação dos mais pobres? As nossas sociedades ainda estão pouco habituadas a tentar compreender o modo de pensar que os mais pobres adquirem através da sua experiência - não só para mudarem as suas condições de vida, mas também para contribuírem para o futuro da humanidade. Tudo o que vocês nos enviaram por escrito prova que os vossos compromissos são duradoiros. Vocês sublinham que ninguém deverá pensar que este encontro foi fácil, que bastou desejá-lo. Na realidade todos precisamos de nos apoiar em pessoas que se comprometem e se empenham pela participação dos mais pobres, o que garante a participação de todos. (...) Que poderemos nós fazer para que esse encontro entre os mais pobres e o resto das nossas sociedades dure, e gere uma transformação, vinda desse mesmo encontro?
De todos os lados nos chega a pergunta: Quem sou eu? Quem somos nós perante a insegurança e a extrema pobreza das famílias? E, por detrás desta questão urgente, põe-se para cada um de nós a dolorosa questão do sofrimento: Quem sou eu perante o sofrimento dos outros? É assim que dentro de nós e entre nós se podem acumular solidões insuportáveis e destruidoras, se forem demasiado longas. (...) Ousar palmilhar o caminho que nos conduz até ao coração do desespero dos mais pobres, é aceitar ir além dos nossos pontos de referência, sejam eles quais forem. É aceitar o facto de nem sempre termos as palavras convenientes, é aceitar o silêncio, é aceitar que também temos de nos conhecer a nós próprios. Nesse caminho precisamos que nos acompanhem, que nos apoiem, precisamos de estar ligados a outros. Não será a esse nível que devemos construir a ligação com a sociedade de informação? (...) Para os mais pobres, como para todos nós, é por aí que passa uma sociedade de informação que saiba, não só associar dados entre si, mas que seja capaz de associar os homens e os povos num destino comum (...).»
Representantes de associações, universitários, pessoas trabalhando em lugares difíceis, trabalhadores sociais ou ainda formadores, os participantes tinham todos em comum um compromisso, um engajamento junto de pessoas e de famílias muito desfavorecidas. O encontro de todos construiu-se como um puzzle, onde cada uma das peças testemunhava dos esforços feitos para se aproximarem uns dos outros, para se tornarem disponíveis. A qualidade de cada um foi-se revelando ao longo deste seminário do Mediterrâneo: nas sessões plenárias, nos grupos de trabalho, nos ateliês de criação artística, na comemoração realizada na Place de l’Espérance (Praça da Esperança) em Marselha à volta da Laje em honra das vítimas da miséria, e ainda nas visitas a outras associações.
Sua Excelência Ismail Serageldine, Director da Biblioteca de Alexandria, no Egipto, e a Comissão nacional francesa na UNESCO, enviaram mensagens de apoio. No seu discurso de boas-vindas, Pierre Rastoin, Presidente do Centro La Baume, disse: «La Baume é um centro de formação, de escuta, de livres debates. Está aberto a todos, sem excepção. (...) Poder acolher aqui o vosso seminário inter-regional, cujo principal objectivo é compreender como podem os mais pobres dar o seu contributo para o diálogo entre pessoas de culturas diferentes, é para nós uma grande felicidade. É o âmago do nosso projecto. (...) A vossa presença aqui é uma semente de paz. Uma paz muito frágil, mas que não tem preço. Os mais pobres, quase sempre as primeiras vítimas dos conflitos, devem desempenhar um papel de destaque no diálogo entre todos os homens e todas as mulheres de boa-vontade, que é o único que pode levar à paz. O vosso Fórum Permanente é a sede desse diálogo. O vosso seminário nesta nossa casa é para nós uma bênção.»
Por outro lado, muitos correspondentes do Fórum Permanente de África, da América Latina, da Europa e da Ásia, também nos enviaram por escrito as suas reflexões e experiências ligadas ao tema do seminário (ver na próxima “Carta aos amigos”).
Os intérpretes, que trabalharam gratuitamente, foram discretos mas estiveram sempre muito presentes. Uma dinâmica e competente equipa do ATD Quarto Mundo da região PACA (Provença, Alpes, Côte d’Azur) assegurou o bom acolhimento e a logística indispensáveis ao desenrolar dum encontro deste tipo.
Este número da “Carta aos Amigos do Mundo” relata a realização deste desafio, desta frágil e encorajadora troca de experiências realizada graças à determinação de cada um. O caminho fica traçado e à espera dos nossos passos.
Huguette Redegeld
Vice-presidente
MENSAGENS DE ENCORAJAMENTO
Da Comissão francesa na UNESCO:
«(...) O seminário que hoje se inaugura tem como objectivo o acesso à cultura das pessoas desfavorecidas. Tentando agarrar-se o mais possível às realidades vividas pelas populações em grande pobreza, trata-se, por um lado, de fazer com que melhor as conheçamos e, por outro, de lhes dar acesso ao diálogo e à abertura através da cultura, contribuindo assim para mudar as suas condições de vida. (...) A Comissão francesa na UNESCO apoia, pois, incondicionalmente o vosso seminário. (...) Ela deseja, através desta mensagem, associar-se a ele, encorajando todos os seus participantes a prosseguirem na tão fecunda reflexão iniciada por ATD Quarto Mundo, e esperando que as suas conclusões virão alimentar as acções futuras da UNESCO neste campo.»
De Sua Excelência Ismail Serageldin, director da Biblioteca de Alexandria, no Egipto, que lamentou não ter podido participar no seminário:
«(...) É para mim uma honra poder enviar-vos algumas palavras para exprimir o meu total apoio à vossa reflexão sobre os temas do seminário, que tão importantes são para toda a sociedade mundial. (...) O acesso à cultura e à informação é um instrumento determinante para levar os povos a promoverem, em conjunto, uma compreensão e uma tomada de consciência ou, por outras palavras, um compromisso comum. _ (...) Uma parceria global deve ligar os mais desfavorecidos às redes mundiais e, nesta luta, todos os parceiros devem também penetrar nas comunidades desfavorecidas. Parece-me possível constituir uma plataforma para desenvolver uma visão comum dos recursos que devem ser utilizados, estabelecendo uma lista das iniciativas locais e consultando as pessoas sobre as questões que lhes dizem respeito. (...)»
I. SEGUNDA-FEIRA, 26 DE SETEMBRO DE 2005: “VIVER JUNTOS, ou os diálogos interculturais no dia-a-dia”
Em cada pequeno grupo de trabalho, começámos o debate pelo tema “viver juntos”, isto é: como é que os muito pobres conseguem, ou não, um lugar na comunidade onde vivem, como é que eles se misturam, ou não, com os outros grupos de habitantes - grupos pertencendo a uma camada social diferente, a uma outra região, a outro país. O objectivo deste debate era verificar como é que o diálogo intercultural é, ou não, vivido pelos mais pobres na sua relação com a humanidade que os rodeia, como é que eles vão saindo da extrema pobreza, à medida que o isolamento em que vivem vai desaparecendo. Vejamos algumas passagens dos debates ocorridos nos diversos grupos de trabalho.
Com quem é que nós estabelecemos compromissos? Quem são aqueles que sofrem, que nos habitam e que mais nos preocupam?
Como ponto de partida das nossas trocas de ideias, nós - que pretendíamos, neste seminário, encontrar-nos, tendo por base a nossa humanidade - fomos ao encontro daqueles que nos preocupam por causa da sua extrema pobreza. Nomeando-os, fizemos com que eles existissem. Alguns exemplos:
«Acho que as aldeias que estão à volta da minha terra natal são as mais pobres de todas, porque as pessoas não têm trabalho. A maioria das crianças deixa a escola aos 7 anos. Há muitas crianças que morrem por causa de matérias tóxicas, pois o hospital fica a mais de 10 km. Actualmente, estamos dando aulas de alfabetização e agora a situação de algumas mulheres começou a melhorar. Elas começam a poder decifrar certos nomes para poderem apanhar a camioneta e irem ao hospital. As pessoas sofrem muito porque têm que andar vários quilómetros para irem à água. Instalei um pequeno café e, quando temos tempo, reunimo-nos com os jovens e falamos daquilo que queremos construir juntos.» (Hassan)
«Na minha terra natal, acho que os mais pobres são os refugiados. A nível de saúde, o resto da sociedade não vê os refugiados de um modo positivo, pois eles só recebem os cuidados médicos mais básicos. No maior dos campos de refugiados, com menos de 1 km quadrado, vivem 11.000 habitantes; só lá existe um único centro de saúde e um único médico. Só há uma escola para os rapazes e outra para as meninas.» (Wafa)
«95% dos leprosos são os mais pobres, entre os mais pobres. Eles vivem sempre muito isolados por causa dos costumes e das tradições, vindas de uma época em que não se podia curar a lepra, que, ainda por cima, era considerada como uma “maldição”. Este isolamento é o resultado de vários factores: familiares, psicológicos, económicos e culturais.» (Nader)
Mas, para poderem viver juntas, as pessoas não precisarão primeiro que tudo de, muito simplesmente, «existirem»?
Existir oficialmente:
«Há pessoas pobres demais para poderem oficializar o seu casamento no registo civil, pois isso custa muito caro, por causa do exame médico e dos documentos necessários». (Hala)
E nós pudemos avaliar a gravidade desta falta de reconhecimento civil, pois ela transmite-se aos filhos:
«Uma mulher casada, que não está inscrita no registo civil, não pode ir ter os filhos aos hospitais públicos, pois, oficialmente, ela é solteira. E o único direito que terão os seus filhos é o “direito à cadeia”». (Thérèse)
«Essas crianças não entram nas estatísticas. No nosso programa, podemos dizer que temos cerca de 3% de crianças pobres sem identidade. E esse número aumenta de geração em geração.» (Hala)
Mas também, e acima de tudo, existir aos olhos dos outros:
Para os pobres existirem, precisam de poder dar. Para os muito pobres poderem dar, nós temos que aprender a receber:
«Aquando de um encontro, quinze anos mais tarde, certos jovens ciganos disseram que tinham passado a gostar da escola que antes detestavam, porque nela tinham sido reconhecidos através de um elemento essencial da sua identidade: a música.» (Claude)
«É importante, para mim, eu existir para alguém e poder exprimi-lo aos outros, poder dizer quem sou, donde venho, o que gostaria de ter. Para mim, os momentos em que se pode partilhar, quando a partilha se faz nos dois sentidos - um ser humano com outro ser humano - sempre foram importantes. Sempre que as pessoas estendem a mão, eu penso num provérbio africano: «A mão que dá, está sempre por cima da mão que recebe». Ora, quando alguém aperta a mão de outrem, é diferente: não há nenhuma mão mais baixa do que a outra.» (Jean-Pierre)
Por vezes, estamos perante dilemas
Somos sensíveis às condições de vida das pessoas, sentimo-nos interpelados por elas. Até que ponto devemos aceitá-las?
Passagens do debate: «- É importante ver os problemas postos pela burocracia e pelas relações administrativas em geral. Pelas leis, também. (Vincent)
- O que o Vincent disse levanta a questão de sabermos até que ponto podemos aceitar certas situações, quando as regras são injustas. No nosso trabalho com as famílias, em que medida deveríamos consagrar-nos a tentar mudar as regras? Quando tentamos mudar as regras, às vezes é impossível. Mas, por vezes, conseguimos mudar algumas coisas. Sendo trabalhador social, sou muitas vezes confrontado com a questão de trabalhar com leis que não estão adaptadas às pessoas que vivem na pobreza. Quando não temos o orçamento necessário, se tivermos que trabalhar com instituições que não são como deveriam, há muitos problemas. (Adi)
- É perfeitamente evidente que não serve de nada votar uma nova lei se ela não for adaptada, e que é preciso trabalhar sobre as leis, ao mesmo tempo que se trabalha com as pessoas. As duas coisas são necessárias. (Thérèse)
- Poderíamos acrescentar que o que talvez fosse mais eficaz, seria trabalharmos junto das pessoas, com elas, sobre as leis; utilizarmos os meios e os instrumentos necessários para que as pessoas efectivamente interessadas possam dizer como vêem as coisas. E também teríamos que nos rodear de gente competente que pudesse traduzir tudo isso em termos legislativos.» (Martine)
«Certos problemas, como a falta de trabalho, podem ser sentidos por toda a sociedade, mas para os mais pobres são mais agudos. Muitas vezes, no meu trabalho, sinto-me confrontada com este dilema: Eu acompanho uma família, e o Estado corta-lhe a água. O Estado para quem eu trabalho! É como se um membro do meu próprio corpo tivesse cortado a água àquela família!» (Rachel)
* Que tipo de iniciativas, que tenham levado viram os habitantes de um mesmo bairro, de uma mesma região, a unir-se, viram vocês? Em que situações uma criança, um jovem ou um adulto vivendo em condições muito difíceis vos levaram a descobrir uma outra maneira de viver em conjunto? Em que medida é que essas descobertas influenciaram a vossa maneira de ver, a vossa reflexão, a vossa acção?
Vejamos quatro momentos muito intensos que animaram os debates de quatro grupos de trabalho diferentes, e que ilustram uma extraordinária experiência de humanidade partilhada:
«A nossa associação trabalha com crianças que deixaram a escola oficial, que estão sempre na rua, que começam a drogar-se com cola e a roubar. Nós damos uma grande importância ao diálogo, de preferência a certos projectos de acção social que prestam assistência com enormes meios financeiros e que não resultam. A associação começou a trabalhar com as crianças de que falei, e pediu a outras crianças do bairro para lhes proporem períodos de jogo, através de ateliês de teatro, de desenho e de marionetas. Em cada ateliê, tentamos transmitir valores, como por exemplo: “trabalhar juntos, força de vontade, desenvolvimento, solidariedade”. Já começámos a notar diferenças no comportamento das crianças. Conseguimos que certas crianças voltassem à escola. Trata-se de uma acção realizada no interior da escola, para criar actividades entre as crianças que já estão na escola e as que estão fora. Com as crianças, tentamos ter um olhar crítico, isto é: analisar o que se passa na sociedade, falar dos problemas actuais e pensarmos juntos no que se poderá fazer. Este projecto chama-se “A educação pela arte”.» (Sameh)
«A minha terra natal é uma aldeia pobre como a maioria das aldeias rurais dos países em vias de desenvolvimento, onde não há propriamente diferença entre ricos e pobres. A aldeia está completamente isolada, não há estrada, nem escola, nem água potável. Nesta comunidade, como na maioria das comunidades rurais, as pessoas têm o costume de gerir tudo o que lhes diz respeito. São comunidades organizadas que funcionam, que têm instituições, competência, valores partilhados. Dividem entre si a água da rega, gerem a mesquita, as questões comunitárias, as relações na aldeia. Sabem como fazer as coisas. Mas, na altura em que foi lançado o nosso projecto, depois da seca dos anos 80, havia uma falta de água terrível. Os aldeões tinham que andar 10 a 12 km para irem buscar água. Então lançaram um apelo à solidariedade. Contactaram pessoas oriundas da aldeia que trabalhavam longe, como eu. O facto de ter voltado à aldeia para ver qual era exactamente o problema, fez-me reflectir em como as pessoas, com a sua própria instituição, tinham lançado o projecto da água potável. De um modo bem moderno, tinham criado uma associação, mas uma associação de todos os habitantes, inclusivamente daqueles que moravam longe. O contributo desses que moravam fora da aldeia consistia em dinheiro, em competência técnica. E além disso, eram eles que conseguiam resolver os conflitos internos, pois estavam relativamente à margem destes últimos. Era uma maneira de fazer regressar à aldeia, para dar uma ajuda, as competências que tinham partido para a cidade. É por isso que a forma da associação era muito importante para o sucesso do projecto. Os aldeões queriam resolver o seu problema. E nós, que vivíamos fora, dissemos às nossas famílias: Vamos mostrar-vos quais são, hoje em dia, os modos modernos de organização, e a maneira de modernizar as vossas instituições, de investir os vossos valores na modernidade. Foi assim que pudemos fazer participar os jovens à gestão comunitária, e também as mulheres que devem poder exprimir-se em todos os projectos: a água potável tem que vir até casa, não deve ficar só na nascente. Nós sabíamos que tínhamos de estar presentes na aldeia, apoiando a comunidade no seu trabalho, mas que não devíamos fazê-lo no lugar dela.» (Ali)
Num dos grupos de trabalho, falou-se sobre a questão dos jovens e sobre a importância de haver uma melhor compreensão das pessoas. Uma das conclusões foi: Há que ouvir os jovens, ir ao seu encontro. Vejamos algumas das opiniões emitidas:
- O que mais ouço aos membros permanentes da nossa associação, é eles queixarem-se do seu sofrimento perante certos jovens que se fecham completamente e que têm muita dificuldade em entrar no projecto que lhes é proposto. Os membros permanentes organizam coisas e apercebem-se que esses jovens ficam fechados em casa e não saem de lá. (Pierre) (...)
- Quando compreendemos melhor as pessoas, o nosso espírito adquire uma nova maneira de ver as coisas, e o nosso ponto de vista modifica-se. (Susie)
- Se conhecermos melhor, ou diferentemente, a vida dos jovens e das pessoas pobres, seremos capazes de mudar de projecto, para que este fique mais próximo deles. (...)
- Um jovem poderá partilhar coisas comigo durante uma aprendizagem. É durante esse tempo que eu posso aprender coisas com ele, através dele. Todos os dias aprendemos coisas com os jovens. Nós podemos ensinar a um jovem a disciplina, porque na rua não há disciplina. Há um mestre, um professor, que está ali para ele, para lhe dar qualquer coisa. Há dois intervalos de recreio por dia e, a certa altura, fala-se do que o jovem fez:« - O que é que fizeste ontem? - Vi um filme. - Que filme era?» E começa-se uma conversa. Noutra ocasião, durante o Ramadão, um jovem faltou três dias. Eu sabia que ele era duma família muito pobre e que eles tinham problemas de alojamento. Moravam num bairro-de-lata, numa favela. Ele tinha uma gripe mal curada que degenerou em pneumonia. Convidou-me para tomar chá com ele. Fiquei impressionado pelo aspecto da casa, pelo ambiente do bairro. Foi aí que eu descobri a realidade em que ele vivia. E isso impressionou-me. Aquele rapaz, que estava doente e que continuava a sorrir, impressionou-me. Quando me viu chegar, quis levantar-se, por respeito: o meu professor veio ver-me. E acho que, àquele rapaz, nem sequer lhe tinha passado pela cabeça que um dia eu poderia ir à casa dele. Era só olhar à minha volta, ver a degradação de tudo... mas ele sorria e cumpria a tradição do bom acolhimento. (Si M’hamed)
- Isso quer dizer que aquela realidade, daquele rapaz, tu não podias vê-la no trabalho. E foi porque foste ter com ele, lá onde ele morava, que ficaste a conhecê-la.»
«Eu vou a um certo bairro, todos os sábados, com a biblioteca de rua, para as crianças que lá estão. Há ali 300 alojamentos. Um terço das famílias vem do Magreb, outro terço, da Turquia, e as outras famílias são famílias francesas muito pobres. Na última semana de Julho, no meio das férias grandes, nós propomos-lhes actividades mais intensas, com ateliês, onde quem sabe fazer alguma coisa pode ensinar a quem não sabe. E há duas coisas que acho formidáveis: A primeira é que para participar nessa animação vêm jovens que não conhecemos mas que vêm da classe média e rica. São uns quarenta jovens que lá chegam simplesmente para partilharem e encontrarem outros jovens. A segunda coisa é que, pela primeira vez do ano, todas as comunidades, toda a gente está reunida para viver esses dias intensos. E aí, todas as diferenças se apagam. Temos 300 crianças, mais os pais. Não sabemos donde vêm, e a questão do dinheiro deixa de existir. É a gratuidade total. O dinheiro desaparece, o que é bem raro na sociedade em que vivemos. Este ano, a festa de encerramento foi muito apreciada, porque um grupo de jovens executou danças folclóricas, e todo o bairro dançou! E diziam que os jovens daquele bairro não eram recuperáveis...» (François)
Como conclusão, naquele dia, um dos grupos sublinhou como pontos importantes:
«Queremos passar do “fazer para” ao “fazer com”.» (Jona)
«Para mim, a questão de “se integrar completamente na sociedade” começa por mim próprio. Há que se fundir nos outros, mas isso começa em mim. E para trabalhar em conjunto, tenho mesmo que aceitar uma mudança na minha maneira de olhar os outros, na minha maneira de pensar, para entrar em diálogo com o outro.» (Tahany)
«1) É preciso que aceitemos trabalhar com os pobres e que tenhamos uma disponibilidade total. 2) Que trabalhemos em parceria com os pobres e que os integremos na sociedade. 3) Para mim é o mais importante: trabalhar para apoiar os pobres, para eles se sentirem orgulhosos de si e terem confiança em si próprios. A pobreza não é nenhuma vergonha.» (Nouraldin)
TERÇA-FEIRA, 27 DE SETEMBRO DE 2005: «AS NOVAS TECNOLOGIAS»
O tema proposto tratava da maneira como os mais pobres fazem, ou não, parte do mundo de hoje. Por um lado, temos gente que constrói auto-estradas da informação, e é como se possuísse um campo muito fértil. Por outro, há homens que continuam isolados, cortados de tudo e de todos, com um campo por cultivar. Que sabemos nós dos meios de que dispõem os mais pobres para que o seu horizonte se possa também alargar? Qual é o papel que os actuais meios de comunicação desempenham nas suas relações com o mundo, na sua abertura ao mundo?
Os nossos debates mostraram em que medida os meios tecnológicos modernos podem destruir a vergonha das famílias que mais longe deles estão; estes meios podem dar-lhes uma nova liberdade abrindo-lhes novas portas para além da rua ou da mendicidade, através duma pesquisa feita por várias pessoas, com a plena participação dos mais interessados - os próprios pobres. A aprendizagem da língua do país onde vivem as pessoas mais desfavorecidas, assim como a aprendizagem da leitura e da escrita são indispensáveis e fundamentais - e isso foi bem acentuado. Afirmámos também que os mais carenciados possuem uma inteligência, saberes e competência, e que a sua valorização é indispensável para eles ousarem tentar a aquisição de novas aprendizagens.
«O desenvolvimento através da partilha e do convívio com os pobres, é uma verdadeira etapa no caminho que leva a um futuro melhor. Aceitar o outro é uma etapa importante para o desenvolvimento da sociedade, da sociedade dos mais pobres. É importante reconhecer que os pobres têm capacidades e energias que precisam de ser utilizadas.» (Sameh)
Evocámos aspectos positivos:
«No meu país, uma ONG que trabalha no sector da educação organizou uma campanha à escala nacional para favorecer o acesso de todos aos computadores e à Internet. Circularam pelo país todo, nas cidades e no campo, com um camião equipado com computadores. E por toda a parte, os pais ficavam felizes vendo que os filhos podiam treinar esta nova competência.» (Burcu)
«As crianças da rua tinham saído da escola. A UNESCO mandou computadores que as crianças utilizaram para aprender árabe, para aprender a ler e a escrever. E elas aceitaram isso bem. Chamamos-lhe “a escola paralela”. Funciona muito bem. Da capital, eles comunicam com outras escolas, e com as crianças da rua de outra cidade, nos cibercafés.» (George)
«A tecnologia de base para todos, tanto para os ciganos como para os outros, é o telemóvel. Eles ainda não consideram o computador como um instrumento de comunicação, e utilizam-no sobretudo para jogar. Nós servimo-nos de uma máquina de filmar que as próprias crianças utilizaram para fazer um inquérito às pessoas do bairro. Fez-se um vídeo, e o filme foi difundido em toda a cidade. Era muito interessante porque mostrava experiências postas em confronto, experiências de vida muito diferentes. Foi um período de comunicação extraordinário. Quando as crianças apresentaram o filme, estavam todas vaidosas, pois tinham falado de coisas que conheciam perfeitamente.» (Emma)
«Eu, por mim, não utilizo muito as novas tecnologias, mas preconizo o desenvolvimento. Investi-me junto de pessoas sem abrigo, muito fechadas dentro da sua situação de excluídos. A nossa associação abriu um café onde eles são ouvidos, e encontram respeito e apoio. Isso faz com que, agora, eles se sintam individualmente com mais força. Já se aventuram no mundo exterior, e abriram-se ao bairro. E agora tomam iniciativas: procuram trabalho, e participam num jornal onde falam das notícias do bairro e fazem entrevistas. Há quatro anos que a associação lhes propõe um curso de informática.»
Uma pessoa do grupo de trabalho pergunta: «Será que as pessoas, que vivem sem relações por causa da pobreza, não poderiam entrar em comunicação com outras, utilizando um instrumento das novas tecnologias, sem passarem por uma relação pessoal?»
«O curso de informática faz com que elas se adaptem a esta revolução digital que as interessa, e que de qualquer das maneiras oferece a todos grandes oportunidades. Mas a relação pessoal ajuda-as muito. A força da escuta e do encontro ajuda-as a avançar. E isso ajudou certas pessoas a aproximarem-se do computador. Nunca o teriam feito sem essa ajuda.» (Yves)
«Só se chega à expressão do espaço de liberdade dado pela Internet depois de um longo processo. Na minha terra natal, há famílias muito religiosas. As mulheres destas famílias, ninguém as conhece, não trabalham, só rezam. Estão totalmente isoladas porque os maridos não as deixam sair. Mas elas começaram a trabalhar com computadores, o que deu sentido às suas existências. Foi uma mudança profunda. E deu um resultado inesperado: algumas delas são ajudadas pela assistência social. De repente, tornaram-se peritas em informática e as assistentes sociais sentem-se ultrapassadas. Podemos constatar uma distanciação importante. Acho que o computador e as tecnologias modernas abrem horizontes desconhecidos, imprevistos. E nós temos que ficar contentes que isso exista e fazer qualquer coisa para ajudar, pois é muito útil para as famílias pobres.» (Jona)
Também constatámos aspectos negativos:
«Quando eu ia visitar certas famílias, via que havia a televisão. Depois chegou o telemóvel, que melhorava um pouco o isolamento. Mas que também criava problemas porque trazia mais dívidas.» (Pierre)
«Temos um grande problema com os cibercafés. A maioria das pessoas não tem computadores em casa, é por isso que os filhos das famílias muito pobres vão a esses cafés. E entram em sítios web que nem sempre são honestos nem correctos. Agora os rapazes só falam da garota com quem conseguiram entrar em contacto pela Internet. Para eles é uma coisa muito intensa, é como se entrassem num mundo imaginário. Acho que isso exige que tenhamos programas para ensinar os jovens a utilizar o computador de um modo correcto, para que mais tarde eles possam tirar proveito da sua educação e dos seus conhecimentos. Ficamos preocupados ao ver a Internet utilizada como um lugar de prostituição.» (Nouraldin)
«A alguns quilómetros da nossa terra natal há cibercafés, que não são assim tão maus, quanto a mim, já que tudo é uma questão de educação e os jovens não podem falar de sexualidade em casa. Nas famílias deles, não têm ninguém a quem possam confiar os seus problemas. E a Internet é uma maneira de poderem falar sobre isso. Mas, recentemente, foi-nos dado constatar um dos seus perigos. Foi um rapaz que se pôs a sonhar com uma europeia que se correspondia com ele, aquilo durou três ou quatro meses, mas ela andava a fazer troça dele. Quando ela disse: vou visitar a tua cidade, ele preparou tudo para a receber, mas ela acabou por lhe dizer que não vinha, que tinha sido só para brincar! Quando ele viu que tudo tinha sido uma brincadeira, suicidou-se. Aquilo marcou-nos muito. O trabalho que devemos fazer é importante: temos que informar os jovens que a Internet não é a realidade, mas que, mesmo assim, temos que utilizar os instrumentos que nos fazem descobrir o mundo e o que nele se constrói.» (Abeldhamid)
Reflectimos em termos de futuro:
«Já aqui se disse como é que as tecnologias modernas podem aproximar as pessoas. Mas acho que elas deveriam estar muito mais ao serviço do “dar a conhecer”. Dissemos que “conhecer as pessoas é um tesouro”. Eu acho que poderíamos acrescentar, depois de ouvir cada um de nós: “ficar a saber o que as pessoas conseguem fazer” é um tesouro. E então, como é que as novas tecnologias e os meios de comunicação fazem saber, fazem circular isso, põem isso em rede?
A história duma equipa de basquetebol que o Wafa contou: «Na nossa terra há muitos desempregados, e muitas crianças e adolescentes que não têm nenhum lugar para brincar. Então eles arranjaram uma pequena equipa de basquetebol para jogarem nas ruas e no meio das casas. Treinaram-se muito bem e derrotaram todas as equipas das aldeias e cidades vizinhas. Foi um choque!».
E a história da arte que cria laços entre as pessoas, contada pelo Sameh: «No começo do projecto, a ideia era tirar as pessoas da sua aldeia para verem outras coisas. Esse ponto foi muito importante. Mas a única coisa que fez com que o isolamento se rompesse, foi a arte. A arte conseguiu aproximar as pessoas. Sempre insistimos para acompanhar as meninas ao cinema, ao teatro, às galerias de arte. Antes, era inconcebível. Nem sequer pensávamos nisso. Apesar de todas as críticas, houve também artistas que vieram a casa dos pobres para pintarem frescos nas paredes. E pessoas doutras aldeias vieram ver, o que permitiu travar novas relações. A arte não é uma solução final, mas é uma primeira etapa para romper o isolamento.»
... Essas histórias são extraordinárias e só podem dar coragem aos outros para eles continuarem e ousarem também fazer alguma coisa. Acho que, neste ponto, há uma falta de ligações, no campo das novas tecnologias, que se deveria tentar suprir.» (Eugen)
«Eu estava ligado a grupos de deficientes que pediam esmola na rua. Um líder do grupo, uma mulher, disse um dia em público: «Quero parar de pedir esmola, quero fazer outra coisa.» Ela andava a pedir desde os 7 anos e tinha cerca de 40. Levámos um certo tempo para percebermos o que ela queria fazer. Acabou por concluir: «Se eu conseguir pôr-me a vender qualquer coisa, desenrasco-me.» E ela sabia que noutro país havia pessoas que tinham deixado de pedir. Precisava de saber como é que elas tinham feito. Procurámos juntos soluções colectivas, quais os caminhos que outros tinham seguido para o conseguirem. O facto de saber que havia alguns que tinham arranjado uma lojinha, era encorajador e indicava soluções concretas. Hoje, a Internet permite isso mesmo: cada um pode pôr num sítio web aquilo que fez e a sua própria experiência: há todo um saber que se exprime, e a que temos acesso. Mas aquilo que precisamos de saber para “sair da miséria”, isso não está lá. O que lá há é um instrumento que pode permitir uma troca de conhecimentos muito concretos entre comunidades.» (Jean-Pierre)
«Quero referir-me a jovens, a crianças e a adultos que viveram uma história de miséria. Desde que haja qualquer coisa para aprender, eles partem do princípio que não vão conseguir. Já passaram por tantas tentativas de aprendizagem falhadas, que dizem: «Não vou conseguir». Perante tais sucessões de fracassos, não basta afastar o medo da humilhação. A experiência que tenho do ATD Quarto Mundo ensinou-me que é quase sempre através duma partilha de saberes que conseguimos afastar a vergonha. Quando a competência de alguém que vive com esta vergonha é valorizada, quando reconhecemos as dificuldades que ele tem para aprender certas coisas, mas mostramos, paralelamente, que ele tem muitas outras competências que a vida lhe foi ensinando - que ele sabe desenrascar-se na miséria, que sabe ajudar os outros, etc., se dermos valor a esse capital que muita gente acha que não tem valor nenhum... Então, entramos numa relação de “partilha de saberes” que permite uma troca de ideias e competências, e aí, já poderemos introduzir e ousar aprendizagens novas.» (Bruno)
COMPROMISSOS
O Ton dizia que as tecnologias eram muito boas, mas que não se podia perder de vista o ser humano. Foi isso que nos levou a falar dos compromissos, dos empenhamentos.
O Nader dizia: «Há o auxílio mútuo que é a ajuda que damos com bens materiais. Mas dar o nosso tempo, o nosso esforço, é outra coisa». E realmente demos conta que dar-se a si mesmo é outra coisa: é partilhar as nossas forças e as nossas riquezas pessoais.
Quisemos, em primeiro lugar, falar do compromisso, do empenhamento, das pessoas muito pobres, pois estamos convencidos de que os mais pobres não esperaram que nós chegássemos para lutar. Com efeito, com muita ou pouca força, eles lutam todos os dias para sobreviverem, muito simplesmente. Alguém vê esses seus esforços? Alguém os reconhece? Alguém os apoia?
«Nos nossos países, já há uma certa solidariedade entre as famílias pobres, sobretudo nas aldeias. É uma solidariedade que está enraizada nas nossas tradições. Por exemplo, se um velho ficar só e pobre, haverá uma família pobre da vizinhança que lhe levará de comer. É assim em todas as aldeias.» (Najwa)
Que fazer para que esta solidariedade dos pobres entre si exista? Que fazemos nós para que os projectos partam desse tipo de esforço?
«As famílias têm seis filhos ou mais. Para elas, é muito difícil mandá-los à escola, comprar-lhes os cadernos, os livros, tudo o que é preciso. Há crianças que me contaram que há algumas que chegam à escola sem cadernos, sem livros, ou com 2 ou 3 cadernos e uma pasta quase vazia. Às vezes, os mestres tentam ajudá-los, tiram fotocópias dos livros que há na escola. Para estas famílias o tempo da escola é muito duro. E mesmo assim tentam assumi-lo com todas as suas forças.» (Zohara)
«Na nossa associação, organizamos seminários para as pessoas tomarem consciência das questões de saúde ligadas às mulheres grávidas e às crianças pequeninas. Temos sempre uma lista de 100 a 120 mulheres. Cada grupo assiste a um seminário uma vez por mês durante seis meses. É preciso que as famílias se comprometam a assistir ao seminário. Mas há mulheres que têm outros compromissos e que não podem assistir. Então, as que estiveram presentes têm que transmitir as informações do seminário às vizinhas, às que não puderam ir. É esse o compromisso destas mulheres: transmitir o que aprenderam. E nós próprios, da associação, comprometemo-nos a respeitar os prazos, a assegurar o bom funcionamento dos seminários e a presença dos médicos.» (Mahmoud)
Apeteceu-nos continuar a dialogar com o Mahmoud e perguntar-lhe: o que é que essas mulheres que vêm aos seminários, e também as que não vêm, vos ensinam? Que é que vocês aprendem sobre os compromissos delas, sobre os esforços que elas já fazem na família e no bairro delas, a nível de saúde? Sobre esses esforços feitos todos os dias, mas que ninguém vê por serem discretos demais, e que por isso não são nem conhecidos, nem reconhecidos...
A segunda grande linha de reflexão era sobre o compromisso da nossa associação, do nosso grupo.
A nossa associação, o nosso grupo, não é só uma “instituição”, uma máquina que funciona, é um conjunto de pessoas que se investem, que dão o seu tempo, os seus esforços, que se dão elas mesmas.
De que precisam as nossas associações, os nossos grupos, a todos os níveis, para que o seu compromisso seja conhecido, reconhecido, e para que possa durar?
«A maioria dos membros benévolos vem de meios relativamente favorecidos e não estão habituados a estes jovens, às condições de vida deles. Quando os encontram, passam, de certo modo, a partilhar a vida deles; e a maneira de encararem as coisas, a sua maneira de pensar, modifica-se. Passam a ter mais energia, ficam motivados e estimulados para ajudarem também outros jovens desfavorecidos. Dão-se conta que estes jovens são desfavorecidos, não por serem incapazes ou incompetentes, mas porque, muito simplesmente, não tiveram sorte.» (Nir)
«O compromisso da minha associação talvez seja fazer com que os grupos mais carenciados se integrem, participando em mudanças que possam melhorar a qualidade de vida de toda a comunidade. Para os mais pobres se tornarem mais fortes, eles podem contribuir. Podem participar como cidadãos que são, com os mesmos direitos que os outros, mas também com responsabilidades. Eles têm responsabilidades, mas têm também o direito de dispor dos instrumentos necessários para poderem participar. E é aí que está a nossa responsabilidade, como indivíduos e como associação: contribuir para fornecer aos mais pobres os instrumentos de trabalho necessários para melhorar as suas vidas, e para eles contribuírem para melhorar a vida de toda a comunidade, como cidadãos iguais aos outros.» (Latifa)
«O meu ponto de vista pessoal sobre o modo de ajudar e de me empenhar põe-me numa posição delicada, porque represento uma associação e tenho de aceitar as suas regras. Às vezes, tenho problemas. Sou um indivíduo, mas também faço parte da associação. Assim, o que tenho feito na minha vida profissional, é arranjar maneira de poder exprimir o meu próprio ponto de vista e de não me sentir perdida no meio de regras ou de opções que possam estar em contradição com os meus próprios princípios. Para mim, o mais importante no meu trabalho social é, sobretudo, nunca esquecer que sou um ser humano que lida com pessoas.» (Rachel)
«A associação que chegou ao nosso bairro fez-nos “germinar”. Pôs-se à nossa escuta e ouviu-nos. É que, aos pobres como nós, toda a gente os manda calar. E é a única coisa que eles fazem, durante toda a sua vida: na câmara, na esquadra, no hospital... Mas, subitamente, há alguém que nos vem ouvir, e a gente “fica de barriga cheia”, vocês nem imaginam! Os da associação têm o dom de nos atrair. É verdade que a escuta também nasce de um encontro. Mas também é preciso haver fidelidade, senão não presta. A fidelidade é como inspirar confiança. E a confiança é como um capital. Depois, podem-se fazer coisas, mas também é preciso que a pessoa que chega tenha paciência. Na fidelidade há a paciência. Eles vieram ver: éramos adolescentes. E eles tiveram a paciência de esperar que nós crescêssemos. Vocês nem calculam a felicidade que eles trouxeram ao nosso bairro! Para nós foi uma metamorfose!» (Abdallah)
A terceira grande linha de reflexão dizia respeito ao nosso compromisso individual. Todos nós somos pessoas, com os nossos entusiasmos, as nossas dúvidas, a nossa força e os nossos cansaços. O que é que faz com que sejamos reconhecidos no nosso compromisso para podermos aguentar a longo prazo? O que é que faz com que não percamos coragem?
«Eu também vivi numa situação horrorosa. O departamento social ajudou-me. Acho que consegui ultrapassar tudo e que agora já posso ajudar os outros. Posso mostrar-lhes como é que eu consegui. Conheço várias pessoas que têm 5, 6 ou 7 filhos e que nem sequer falam a língua deste país. Sentem-se muito sós para todas as formalidades administrativas, sentem-se paralisadas e não se podem desenrascar, não conseguem fazer as perguntas mais simples. E o meu papel é ajudá-las, fazê-las participar, mostrar-lhes que é possível participar.» (Berchiko)
«Quando os pais estão condenados a viver na miséria, quando um chefe de família vive na miséria, toda a sua família está também condenada à miséria. Vou muitas vezes visitar famílias que foram alojadas em centros de acolhimento, em quartos individuais. Para verem os filhos, os pais têm que ir a outro quarto onde as crianças foram instaladas. Dizem-lhes: isto é provisório, mas ficam lá 4 ou 5 anos. A vida deles no centro é muito difícil, naquelas condições não é possível viver. O que nós queremos é que os seus direitos fundamentais sejam respeitados.» (Said)
«Quando eu falo na necessidade de apoiar a família, digo sempre que é preciso ter muitos filhos, porque os filhos é que são a nossa segurança no futuro. As pessoas têm muitos filhos porque não há Segurança Social, não há segurança nas nossas vidas. O meu marido e eu trabalhamos. Há pois duas pessoas que ganham a vida na família. No fim de cada mês, o meu marido vai visitar os pais, que não trabalham. Quando os nossos filhos vêem que ele vai ajudar os pais, que lhes vai levar comida, nós sentimos que é assim que preparamos o nosso futuro. São os nossos filhos que nos ajudarão mais tarde. E eu faço a mesma coisa com os meus pais. Temos uma sensação de compromisso que me parece muito boa.» (Wafa)
«No bairro onde vivo, há imensas nacionalidades diferentes. Descobri na rua certos rapazes que têm uma grande autoridade sobre os outros, uma presença forte na rua e no bairro. Fui ter com dois deles. Um deles droga-se, e o outro está numa situação bastante difícil porque vive com uma família que não é a dele. Lancei um projecto de trabalho com jovens universitários e com eles. Aquilo que faz com que eu queira continuar com o meu compromisso, é que eu descobri um tesouro no interior destes rapazes, verdadeiras pérolas que não se podem ignorar, nem esquecer. O que ainda me faz continuar, depois de todas as tentativas de projecto que falharam, é ver toda esta riqueza dentro deles. É isso que faz com que eu aguente. Criou-se entre nós uma grande confiança e uma relação muito forte. E passámos a ser um grupo. O rapaz que não trabalhava arranjou trabalho. Antes de eu vir para este seminário, nós estudámos o programa, trabalhámos juntos todas as questões e foram eles que me mandaram vir para eu vos contar esta história. Para mim, aguentar, é continuar a ser fiel àquilo em que acreditamos, e não cair na desilusão, nem perder a coragem.» (Sako)
«Vim aqui, não como alguém que trabalha sobre ou com os pobres, mas como alguém que trabalha pela paz. Estamos aqui reunidos e dizemos que queremos arranjar instrumentos e pagar o preço deles. Mas que fazemos nós dos medos que eu tenho? Eu falo de paz, não por causa de um compromisso, mas por causa de algo muito real. Estamos sempre a falar de comunicação, mas eu sinto que mesmo as nossas palavras são barreiras, que não nos ajudam, que incomodam. E pensamos sempre que estamos a falar da mesma coisa, mas tudo é tão diferente... e isso não ajuda nada. Estamos bloqueados porque utilizamos as mesmas palavras, mas sem o mesmo significado.» (Ruth)
«Uma palavra que pouco temos utilizado, é a palavra “disponibilidade”. Porque para se ficar disponível, é preciso às vezes mudar a nossa vida. Ser disponível implica também entrar em conflito com as instituições, com a família, com a mulher, com os filhos, com o marido. Ser disponível, é passar por problemas pessoais, assumir primeiro compromissos para consigo. Não acho que o compromisso seja algo que se possa explicar, pois é algo que só se pode sentir. Quando alguém se compromete, os outros sentem-no, o compromisso partilha-se muito. Não é um discurso, é algo que se comunica. O modo de falar, de estar presente, de ser disponível, permite a partilha do compromisso com os outros.» (Ali)
«É porque há pessoas que assumiram um compromisso, que certas populações conseguiram desenrascar-se. Estou-me a lembrar de uma senhora que conheci há dez anos. Para mim, naquela época, o seu capital social, a sua rede de relações, era inexistente. Mas ele existia. Havia redes de relações entre famílias que eu não via, que ninguém via, nem sequer os serviços sociais. Mas eu também não podia avaliar em que medida é que eu fazia parte desse capital social. Acho que é algo que essa senhora pode agora afirmar, mas que não se atrevia então a mostrar. E eu pergunto: Quem é que vai ter com as pessoas a casa delas? É essa visita que irá revelar as pessoas, aquilo que elas são verdadeiramente, na sua humanidade. Este encontro, esta visita, não é uma finalidade, mas é uma etapa obrigatória para essas pessoas poderem erguer a cabeça. O que o Yves disse é verdade, dá-se uma espécie de clique. É mesmo uma coisa súbita e intuitiva.» (Pierre)
OS ATELIÊS DE CRIAÇÃO ARTÍSTICA
O facto das pessoas se conhecerem e se reconhecerem não passa forçosamente pela palavra, pela troca de ideias. É algo que pode acontecer durante uma actividade comum, realizada em conjunto, que nasce do “fazer juntos” qualquer coisa. Vivemos isso através do trabalho das nossas mãos e dos nossos corpos nos cinco ateliês propostos em cada dia: de teatro, de escultura feita com arame, de comunicação e novas tecnologias, de caligrafia, de pintura. O que vem a seguir mostra como esses ateliês contribuíram para o encontro entre nós e para que uníssemos as nossas forças a fim de irmos mais longe todos juntos.
No ateliê de caligrafia, animado por Nourredine, calígrafo profissional, este propôs a «animação de um espaço, misturando as várias escritas (latina, árabe e hebraica), para criar um arranjo que pudesse ser visto depois como uma mímica, uma caligrafia que pudesse ser interpretada como uma obra gráfica».
Assim, sem sequer conhecermos as letras que traçávamos de todas essas escritas, todos nos treinámos a escrever com letras bonitas, por exemplo a palavra “fala”, cada um na sua folha. Depois, todos juntos, entrelaçámos, cruzámos o que tínhamos escrito numa única e grande folha branca. Foi através do cruzamento da escrita de cada um com a de todos que o encontro se realizou.
No ateliê de pintura, que o Dan animou, ele confiou-nos a sua riqueza: «Quanto a mim, acho mesmo que este tempo que partilhámos foi muito positivo. Ao entrar para o seminário, cada um deixou à porta as suas diferenças, e concentrou a sua atenção naquilo que tinha em comum com os outros - o desejo de estar ao lado das famílias mais pobres -, e na preocupação de como poderíamos trabalhar juntos para construirmos um mundo melhor. Muitas vezes, foi preciso assumir as diferenças, e o facto das pessoas estarem face a face criou as condições para que uma discussão fosse possível, e permitiu uma interacção.»
Alguém disse, um dia, à mesa: «No meu país, nunca teríamos podido estar assim sentados à volta da mesma mesa.»
Houve um outro que pintou um grupo de pessoas de cores diferentes, ao sol, ao pé do mar. Ao lado do sol havia uma representação da Terra, escura, acorrentada, com alguns países pintados a vermelho. E o pintor comentava assim o seu quadro: «Este mundo sombrio, acorrentado, é o passado, os tempos difíceis, os tempos maus do meu país. Olhem como as fronteiras estão bem marcadas. Mas no oceano não há fronteiras. A água chega livremente a vários países. Todos os povos são diferentes, mas todos serão iguais se disserem não às armas e se abrirem a um futuro mais amplo.»
E, durante um ateliê ao ar livre, alguém comentou: «É formidável podermos estar assim todos juntos, em silêncio.»
ALGUMAS CONCLUSÕES DOS PARTICIPANTES
«Durante estes dias, fiquei muito impressionada pela grande qualidade humana, pela grande humanidade das pessoas que aqui estiveram, e também porque detectei na maioria delas, talvez até em todas, uma grande alegria de viver, assim como um desabrochar de todo o seu ser. E digo a mim mesma que tudo isso são coisas que recebemos das pessoas que encontramos e com quem vivemos, e queria dizer-lhes “muito obrigada”.»
«Volto para casa cheio de esperança, porque sei que poderei contar sempre com vocês todos. Todas estas potencialidades, que aqui encontrei, irão ajudar-me no meu trabalho, para eu ter ainda mais coragem e dar coragem aos outros.»
«Fiquei muito impressionada por descobrir que para além das lutas, da guerra e do isolamento de cada um de nós no lugar onde vive, vim encontrar um apoio neste seminário. Não sei bem o que é que isso significa em termos práticos, mas sei que me dá um grande consolo e muita coragem.»
«As pessoas que encontrei neste seminário vieram fortalecer os meus compromissos pessoais e colectivos. Aqui há dias, eu tinha fixado a frase dum amigo que dizia: «Há cada vez mais administrados e cada vez menos cidadãos». Ora, estes dias que aqui passei, os encontros que tivemos, ajudaram-me a verificar que o contrário também existia.»
«Se eu tivesse que escolher uma palavra para definir o que sinto profundamente sobre este seminário, diria que houve um grau pouco habitual e muito raro de ternura entre as pessoas e em cada pessoa. E penso que, no mundo de hoje, em que há uma tão grande ausência de ternura, o facto de ver que pode existir tanta ternura entre as pessoas, é um reconforto e, sobretudo, uma esperança. É algo que pode ajudar cada um de nós a continuar a ser terno em situações em que normalmente não o somos.»
«Quero fazer votos para que o Oriente do futuro, de que falámos há pouco, se pareça, um dia, com este nosso encontro.»