logoATD Quarto Mundo Portugal

CARTA AOS AMIGOS DO MUNDO 61

Fórum Permanente sobre a extrema pobreza no mundo
Junho de 2005.
Carta aos amigos do mundo nº 61
Mês de Junho de 2005

Editorial

Diálogo intercultural e comunicação

Ao longo da história humana, houve sempre viragens decisivas que assinalaram ora avanços ora recuos no desenvolvimento da humanidade. Certos acontecimentos e determinadas pessoas aparecem-nos como símbolos dessas mesmas viragens; temos assim Averróis, Gutenberg, Leonardo da Vinci, e, mais perto de nós, Ghandi, Nelson Mandela, e muitos outros. Personalidades que introduziram na sua época inovações de tipo cultural, espiritual, político ou económico que acabaram por alterar as relações dos homens entre si e com o meio ambiente que os rodeava. A lenta evolução da humanidade foi sendo modelada com o seu contributo, embora, muitas vezes, à custa de incompreensões e até mesmo de rejeições. A história, porém, nunca - ou quase nunca - pôs em evidência o contributo das pessoas muito pobres para o avanço da humanidade, como se os grandes acontecimentos nada lhes devessem. Ora, foram precisamente elas que, muitas vezes, os inspiraram revelando aos outros a necessidade de uma vida comum mais harmoniosa; revelando a necessidade do reconhecimento da igual dignidade que caracteriza todo o ser humano, para que todos pudessem avançar no sentido de uma maior justiça, de uma fraternidade mais palpável. Com efeito, foram elas que, muitas vezes, inspiraram as grandes inovações que aconteceram no campo educativo, legislativo e científico. Joseph Wresinski [1], que nunca se cansou de o repetir, resumia a sua convicção em poucas palavras: "Os pobres estão na origem dos grandes ideais da humanidade..."

O aparecimento dos meios de comunicação modernos, a começar pela rádio e televisão e acabando nos computadores, telemóveis e Internet, não constituirá em si uma viragem da maior importância? Trata-se, com efeito, de uma viragem que veio modificar os métodos de aprendizagem, a comunicação, as relações humanas e o desenvolvimento económico, cultural e científico... E todos nós temos o dever de introduzir as populações desfavorecidas nos locais onde se desenrolam hoje os debates que dizem respeito ao mundo do conhecimento e da informação, debates esses que implicam também o diálogo intercultural. Na verdade, tudo isto são domínios que absorvem a atenção de numerosos peritos, mas a propósito dos quais pouco ou nada se espera das pessoas que vivem na extrema pobreza, como se fossem incapazes de pensar sobre os acontecimentos que as envolvem.

E no entanto, são essas pessoas que praticam no seu dia-a-dia o diálogo intercultural, nos bairros onde vivem, caminhando lado a lado com vizinhos das mais diversas culturas e origens. Que poderão elas ensinar-nos sobre isso? Estaremos nós animados pelo ardente desejo de saber se os mais pobres gostariam de utilizar os meios modernos de comunicação? E para quê? Para poderem comunicar com a família que está longe? Para tecerem laços de amizade? Para terem acesso a novos conhecimentos? Para arranjarem emprego? E, se os não utilizam, será porque o acesso a esses meios é demasiado complicado para eles, ou será por outras razões? Que pensam os mais pobres desses meios? Acharão que podem servir para melhorar as suas condições de vida? Que podem ajudar a melhorar a imagem que os outros têm da pobreza? De que modo? E os jovens, no meio de tudo isto? "Aquilo de que os jovens e as crianças do Quarto Mundo precisam, dizia Joseph Wresinski, é de poderem criar, é de poderem entrar no mundo onde se inventa a humanidade de amanhã. É de poderem construir o seu próprio futuro." Até que ponto os meios modernos de comunicação permitem a aproximação entre jovens vindos de todas as camadas sociais? Será que permitem uma melhor compreensão entre todos? Será que novas iniciativas poderão nascer daí?

Tudo isto são questões a ser aprofundadas, aquando do seminário que vamos organizar no próximo mês de Setembro com os correspondentes do Fórum Permanente dos países mediterrânicos. O seu tema será: "Contributo das pessoas e das famílias muito pobres para o diálogo intercultural no âmbito da sociedade de informação". É para que possamos preparar-nos para este evento que este número especial da nossa Carta gira à volta das novas tecnologias e das relações interculturais, vistas e vividas por pessoas muito pobres da região do Mediterrâneo.

Muito se tem dito sobre este assunto e muito resta para dizer do ponto de vista dos mais pobres! E se os correspondentes do Fórum Permanente nos enviassem por escrito - ou por correio electrónico - as reflexões e as experiências que têm feito neste campo? Viriam assim enriquecer os trabalhos do seminário e, ao mesmo tempo, seria uma maneira de estarmos todos ligados aos amigos da bacia do Mediterrâneo.

Huguette Redegeld Vice-presidente

Egipto

Depois de ter passado vários anos fora do meu país, voltei ao Egipto em representação do movimento ATD Quarto Mundo e aí fui ao encontro de um certo número de associações que se investem ao lado de populações que vivem com grandes dificuldades. Fiquei sensibilizado pela abertura do país relativamente ao mundo associativo e pelo esforço que faz no sentido de um desenvolvimento global. Durante a minha viagem, e também através de pesquisas feitas na Internet, procurei sempre estar atento à questão do lugar ocupado pelas novas tecnologias na educação, no Egipto. Apresento, a seguir, alguns dos aspectos dessa questão.

Qual é o lugar das novas tecnologias na educação, no Egipto? As novas tecnologias estão presentes nos colégios privados, como equipamento de laboratórios, por exemplo no laboratório de química. Também estão integradas na lista de programas, como uma disciplina autónoma. Há uma aula por semana. Mas ainda não foram integradas nas aulas como um instrumento de estudo, nem são utilizadas como uma ajuda para fazer os trabalhos de casa. No ensino público, a falta de meios financeiros limita a abordagem das novas tecnologias aos seus aspectos teóricos, pondo de parte o lado prático. Ora, hoje em dia, todas as empresas exigem o domínio dos computadores, da Internet, etc..... Para arranjar emprego é preciso saber utilizar um computador. Os jovens das camadas sociais mais pobres que, ao saírem da escola, tentam entrar no mercado do trabalho, são automaticamente excluídos. E, se juntarmos a isso o aumento constante do desemprego, devido à diminuição dos postos de trabalho e a um crescimento demográfico elevado, é fácil imaginar as consequências disso sobre a vida da população mais pobre. (...) Sentindo a importância da formação no campo das novas tecnologias, há vários organismos que procuram proporcionar essa oportunidade aos jovens cujos pais não têm meios para isso. Essas mesmas associações instalam centros de formação informática nas mesquitas, nas igrejas, assim como em certos colégios privados. Em 2001, no âmbito da mobilização nacional do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, foi aberto um centro comunitário de acesso às novas tecnologias (CCAT) na municipalidade de Sharkia. A população pode utilizar gratuitamente as facilidades proporcionadas pelo centro. E um novo CCAT será brevemente inaugurado na cidade de Luxor.

E quanto ao telemóvel, na vida das populações pobres? O telemóvel pode ter um papel muito importante para uma parte da população. Por exemplo, para os trabalhadores independentes que não têm um local de trabalho fixo, ou então para as pessoas à procura de emprego que não podem ficar o dia todo em casa ao pé do telefone. O telemóvel também facilita os contactos entre os operários e o mundo associativo. A organização nacional de comunicação está a preparar um cartão telefónico gratuito para os surdos-mudos e para os deficientes. Poderão assim beneficiar das novas tecnologias, utilizando o telemóvel para enviar e receber mensagens, o que tornará a sua vida um pouco menos difícil.

Hani Khalil, Fórum Permanente

Palestina

W.K. é co-fundadora de uma pequena cooperativa num campo de refugiados na Cisjordânia. Três membros da equipa do Fórum Permanente tiveram um encontro com ela em Dezembro de 2004. Ela disse-lhes o seguinte:

"Nós pertencemos à segunda geração deste campo e, agora que nos tornámos adultas, sentimos o dever de agir. Umas tantas de nós juntaram-se e puseram-se a reflectir no que poderíamos fazer. Fundámos uma cooperativa a que pertencem umas vinte mulheres. E, passado algum tempo, lançámos um projecto: o fabrico de sabonetes à base de azeite."

W.K. sublinhou: "O que nós queríamos conseguir através desta produção de sabonetes era, claro está, dar trabalho, dar um pequeno ganha-pão, a algumas mulheres. Mas, para nós, viver em cooperativa também era muito importante, pois isso levava-nos a fazer coisas em conjunto, a pormos em comum as nossas experiências, o nosso saber. Eu, por exemplo, sabia organizar e gerir; outras tinham jeito para coisas mais manuais; e outras ainda participavam com um outro tipo de competências. E, sobretudo, ambicionávamos que as mulheres da cooperativa tivessem a oportunidade de sair do campo, para verem outras coisas, para encontrarem outras pessoas. Gostávamos de lhes proporcionar uma maior abertura."

O nosso projecto só exisitia no papel. As mulheres fizeram-no avançar reunindo documentação através da Internet, para saberem o que fazer para fabricarem um produto de qualidade, para produzirem os sabonetes, para lhes darem forma e perfumá-los. Algumas delas foram à Galileia visitar uma pequena fábrica de essências vegetais; mas foi muito complicado para conseguirem obter as autorizações necessárias para poderem deixar o território e passarem a fronteira. Mas foi graças ao computador que conseguiram o endereço da tal fábrica.

A senhora W.K. disse-nos que, na Palestina, já se utilizava a Internet há cerca de cinco anos. "Graças a ela conseguimos formar-nos. Ela também fez com que nos abríssemos a outros povos, a outras realidades, com que não ficássemos debruçadas sobre o nosso próprio sofrimento." Afirmou que as crianças aprendiam depressa e que, às vezes, ela até pedia ajuda aos filhos para poder utilizar certas funções do computador.

Senegal

Em Dacar, começámos há pouco com a experiência de levar o computador para as Bibliotecas de Rua que animamos em vários bairros, e a tentar usá-lo com as crianças e os jovens que vivem na rua. Estamos ainda nos começos desta nova actividade. No ano passado, como uma espécie de balão de ensaio, tínhamos levado para os bairros pobres um CDROM com uma história: Kiyeko. E vimos um tal entusiasmo nas crianças, uma tal vontade de mexer naquela máquina, de a descobrir, que renovámos a experiência, incorporando-lhe fotografias e também uma máquina de filmar electrónica "Webcam". Vamos agora contar o que mais nos interessou nessa tentativa. No que diz respeito às crianças e aos jovens que vivem na rua ou numa das praias de Dacar, e de quem muita gente diz que não querem aprender, há que assinalar o seguinte: muitos deles estavam presentes e empurravam-se uns aos outros para poderem ver e tocar o computador. Tivemos que arranjar estratégias para que cada criança se pudesse aproximar para tocar no computador. Claro que, neste contexto, os que já tinham visto, os mais dinâmicos, dominavam rapidamente o instrumento. Era, pois, necessária uma grande vigilância e uma atenção redobrada, para que os mais tímidos e os que têm mais dificuldades também tivessem acesso à formação. As condições exteriores - por exemplo, a praia para os que vivem na rua ou nos bairros pobres - fazem com que não se possa avançar muito depressa. Temos, muitas vezes, que nos pôr em equilíbrio em cima dum penedo, com um banco e uma caixa de papelão à volta do computador por causa da luz e estamos sempre a ser empurrados pelos encontrões das crianças que também querem ver e tocar. Para a utilização da câmara de filmar electrónica "Webcam", particularmente com as crianças da rua, é preciso proceder a uma sensibilização e estabelecer um diálogo para lhes explicar o que se está a fazer. No contexto em que estas crianças vivem, acontece que frequentemente a imagem delas é utilizada e mediatizada de uma maneira que não as satisfaz e que lhes deixa muitas vezes um gosto amargo na boca. O que aliás deu azo a que dialogássemos com elas sobre a sua própria responsabilidade quanto ao facto de darem ou não a sua imagem. Trata-se portanto dos primeiros passos desta partilha da informática, com as perspectivas seguintes:
- Há que renovar o convite para as crianças voltarem ao ponto de encontro, de maneira a obter as melhores condições de trabalho possíveis;
- arranjar amigos que estejam prontos a partilharem os seus conhecimentos com as crianças;
- continuar a procurar estratégias de organização para que as crianças possam progredir, isto é, todas as crianças, mesmo as que têm mais dificuldades;
- e realizar o projecto de um veículo cultural, equipado com as novas tecnologias, que possa circular pelos locais onde há Bibliotecas de Rua, para podermos continuar a ir aos bairros pobres, o que é indispensável para que todos possam dominar a técnica informática.

Marius Ilboudo, Pascal Lallement, ATD Quarto Mundo, Senegal

Líbano

Em Janeiro de 2005, a Irmã Thérèse Ricard, da Fraternidade de Borj Hammoud, no Líbano, explicou-nos o lançamento do projecto intitulado: "Participação dos mais pobres no encontro entre culturas". Há já vários anos que a sua Fraternidade vive num bairro particularmente desfavorecido de Beirute. A sua presença e a sua actividade procuram essencialmente criar laços de solidariedade entre famílias de todas as origens, apoiando-se sobre as suas experiências, sobre os seus próprios esforços e aspirações.

"Como acontece nos bairros desfavorecidos da maior parte das grandes cidades do mundo, também no nosso bairro há muitos estrangeiros, quase todos clandestinos, que vivem à nossa volta. Poderíamos sem dificuldade enumerar, entre os nossos vizinhos, umas trinta nacionalidades, gente vinda de África, da Ásia ou do Médio-Oriente. No seio dos habitantes do bairro, criou-se, quase sem se dar por isso, um certo mal-estar, porque estavam inquietos com esta presença tão forte de estrangeiros. Mesmo nós estávamos um pouco inquietas... Mas, as orientações da nossa Fraternidade e a nossa solidariedade para com todos os refugiados por esse mundo fora, fizeram com que, pouco a pouco, passássemos a encarar o aspecto cosmopolita do nosso bairro como uma realidade positiva. A sua diversidade cultural aparece-nos agora como uma nascente de conhecimentos que brota a nossos pés, e estamos a lançar um projecto que baptizámos com o nome de "Universidade internacional de Nabaa", pois assim se chama o bairro onde vivemos. O nosso bairro que tem uma reputação de grande miséria precisa deste projecto para ser visto com outros olhos. Trata-se muito simplesmente de organizar uma vez por mês um encontro sobre uma ou outra das culturas presentes. As pessoas originárias dessa cultura apresentam-se aos outros e explicam a sua maneira de viver. Esses encontros têm um duplo objectivo: fazer sentir a presença de todos os estrangeiros como uma riqueza, num bairro onde há penúria de actividades culturais e dar uma oportunidade aos imigrantes para se valorizarem aos olhos dos outros. Durante a preparação dos encontros, houve alguns que escreveram a um parente, pedindo-lhe documentos, mapas, etc. Outros tentaram arranjar documentários filmados. Um certo número fez exposições de objectos dos respectivos países, ou então de fotografias, ou de imagens religiosas... Também foram apresentados muitos produtos típicos, como as variadíssimas qualidades de arroz do Sri Lanka, o chá, as tâmaras do Egipto, o conhaque da Arménia... E todos podiam provar... Apesar da dificuldade que muitos tinham para se exprimirem bem em árabe, todos falaram com orgulho dos seus países, da sua cultura. Por seu lado, os libaneses evocaram a vida de tantos dos seus conterrâneos que foram obrigados a emigrar por causa da guerra, ou por razões económicas, com todas as dificuldades que isso acarreta. É de assinalar o interesse manifestado pelos palestinianos que nos rodeavam. Uma vizinha libanesa disse-me: "Quando eu olhava para as pessoas vindas doutros países, nem me passava pela cabeça que podia travar conhecimento com elas. Fico muito contente com estes encontros tão fraternos." E a partir daí passou a visitar uma mãe de família filipina, as vizinhas que eram da Etiópia, etc. No Outono de 2004, houve a apresentação de um filme sobre o drama dos refugiados do mundo inteiro. Todos viram o filme atentamente e com muita emoção. Houve depois uma troca de ideias e um tempo de oração. E cada um levou para casa um papel cujo título era "O que tu podes fazer" e que continha propostas de ideias ou sugestões para incentivar a solidariedade."

França

Martine Hosselet, Delegada do Fórum Permanente para a região do Mediterrâneo, fez uma intervenção na UNESCO, em Paris, sobre o tema "Diálogo entre as culturas para a paz", no dia 3 de Abril de 2003. Seguem-se algumas passagens do seu comunicado.

"Durante as Universidades Populares Quarto-Mundo [2], em Marselha, os participantes reflectiram sobre o tema: "Famílias de todas as culturas e de todas as cores". É nos bairros mais pobres que a mistura de culturas é mais acentuada. Vivendo mal alojadas, amontoadas em prédios, as famílias imigradas assim como as famílias pobres francesas partilham, geralmente, um destino comum feito do medo das penhoras e dos despejos, feito de equipamentos sem qualidade, de serviços sociais e culturais deficientes, feito de um habitat degradado... As pessoas vivem constantemente com os nervos à flor de pele, por causa do barulho e da promiscuidade, e a tentação de cair na desconfiança mútua é muitas vezes grande. As ocasiões para as pessoas falarem calmamente e aprenderem a conhecer-se são raras. Os participantes nas Universidades Populares começaram por situar no mapa o país de que eram originários: a Itália, Portugal, Marrocos, a Argélia, a Tunísia, o Senegal, a Ilha da Reunião, as Ilhas Comores, o Líbano, o Iraque, o Curdistão, o Vietname... Também estavam presentes muitas famílias ciganas originárias de Espanha ou da África do Norte. Várias pessoas explicaram o que as tinha levado a deixar o seu país: para as primeiras vagas de imigrantes (italianos e portugueses), foi a procura de um trabalho para escapar a uma situação de miséria e, ao mesmo tempo, também foi uma maneira de responder ao pedido de mão-de-obra feito pela França. Os comorenses vieram para fugir a uma situação miserável, depois da independência do arquipélago. Quanto aos imigrantes mais recentes (do Iraque, do Curdistão ou do Líbano), foi a guerra que atirou as famílias para o exílio. Os participantes tentaram, em seguida, compreender melhor as tradições familiares de cada cultura: a importância dos avós, os diferentes usos e costumes relativos ao casamento, a educação dos filhos "transplantados" para França, a maneira de encarar a morte. Voltando ao diálogo entre as diferentes culturas, há em Marselha uma associação muito original, chamada "Marselha Esperança". O seu objectivo é testemunhar que é possível vivermos juntos, com as nossas diferenças. Esta associação encoraja o diálogo entre todos os marselheses para uma melhor compreensão mútua. Entre 1996 e 2000, um grupinho de pessoas que participavam nas Universidades Populares, reuniram-se regularmente para aprofundar a reflexão e a partilha, no sentido dos apelos lançados por "Marselha Esperança". Durante uns quinze encontros, foram lembrando as histórias que os pais lhes contaram e que, ainda hoje, lhes dão a força de que precisam para viver. Explicaram os diferentes gestos de paz feitos pelos membros das várias comunidades nos bairros onde vivem, como por exemplo o gesto de se desligar a televisão quando morre um vizinho, seja ele muçulmano, cristão, judeu ou budista; o gesto de ir velar o corpo com a família, ficando assim muito naturalmente a par dos costumes das outras culturas. Durante um dos encontros, uma senhora argelina disse: "Cada cultura tem os seus costumes. Eu não posso obrigar vocês a mudarem a vossa maneira de ver, e nenhum de vocês pode mudar a minha, mas podemos respeitar-nos. Nós somos todos irmãos e irmãs. Todos nós ficámos nove meses dentro da barriga das nossas mães..."

Israel

Durante a nossa última viagem a Israel, encontrámo-nos com a jovem senhora D.S.-A., membro de um kibboutz, numa cidade em vias de desenvolvimento onde existem alguns bairros muito pobres.

Em companhia dela, fizemos uma visita a uma jovem mãe com três filhos, que vivia em condições muito difíceis num desses bairros. Tinham-se conhecido no infantário frequentado pelos filhos de ambas e, com o passar do tempo, foi-se criando entre as duas um clima de confiança e de confidências. Durante a nossa conversa, essa jovem mãe contou-nos que o pai lhe tinha prometido uma pequena quantia de dinheiro. Então, sem a menor hesitação, foi falar com senhora D.S.-A. sobre o seu projecto de comprar um computador para os filhos. As duas procuraram documentação, folhearam revistas especializadas, compararam preços e possibilidades. Para aquela senhora era mesmo uma grande esperança que os filhos pudessem aprender a utilizar um computador. Infelizmente, o pai acabou por não lhe poder dar o dinheiro e ela acabou por não o poder comprar. Mas continua com a firme esperança de que isso, um dia, acabará por ser possível.

À noite, depois deste nosso encontro, a senhora D.S.-A. levou-nos para jantar a casa da família de uma outra senhora, que também pertencia ao kibboutz. Durante a refeição, num ambiente muito cordial, contámos o nosso encontro com a jovem mãe e falámos do seu desejo de preparar o futuro dos filhos. A senhora H., que é responsável por uma associação de pais de alunos do bairro, disse-nos que tinha recomeçado a corresponder-se com os filhos que viviam longe. Foi a possibilidade de utilizar o correio electrónico que a "reconciliou" com a escrita, pois já lá iam vinte anos sem escrever.

Annelies Wuillemin, Fórum Permanente

[1] Padre fundador do Movimento internacional ATD Quarto Mundo, 1917-1988

[2] Universidades Populares Quarto-Mundo: lugares de reflexão, de expressão e de troca de conhecimentos entre cidadãos que vivem ou viveram na miséria e cidadãos de outros meios.

carta em .rtf
carta em .pdf
Sítio realizado com SPIP