Carta aos amigos do mundo
Maio de 2007
EDITORIAL
17 de Outubro de 2006 - 17 de Outubro de 2007 CAMPANHA MUNDIAL: ACABAR COM A EXTREMA POBREZA, UM CAMINHO PARA A PAZ
Lançar e levar a cabo uma campanha mundial de mobilização é um acto grave que implica um compromisso. Não podemos assumi-lo de ânimo leve e, para atingir o seu objectivo, essa campanha deverá ir muito para além de uma operação de grande aparato. Isto é ainda mais pertinente, quando é a transformação da vida de milhares de seres humanos que está em jogo, passando essa transformação pela criação de laços entre as sociedades e no seio das mesmas, de modo a que esse novo relacionamento se torne uma oportunidade para a realização dos Direitos Universais cujo fundamento se encontra na dignidade humana.
A campanha mundial: «Acabar com a extrema pobreza, um caminho para a paz», de que talvez já tenha ouvido falar, foi longamente amadurecida e preparada antes de ser lançada no dia 17 de Outubro de 2006 com a Declaração de Solidariedade, que segue junto. As assinaturas das pessoas que terão afirmado: «Contem comigo» serão publicadas, de diversas maneiras e em diversas partes do globo, no próximo 17 de Outubro de 2007.
Para quê lançar uma campanha como esta? A vida quotidiana das pessoas que vivem na miséria mudará por causa dela? As relações entre os habitantes de uma aldeia, de um bairro ou de uma cidade serão transformadas por causa dela? A opinião pública mobilizar-se-á?
A resposta é « sim », se nos apropriarmos da campanha como de um instrumento de diálogo. O facto de propormos às pessoas que nos rodeiam que assinem a Declaração de Solidariedade implica que a tenhamos lido atentamente e que tenhamos avaliado a ambição que nela está contida : considerar os mais pobres como os principais protagonistas da luta contra a pobreza; associá-los à concepção, aplicação e avaliação das políticas que pretendem construir um mundo sem pobreza; apoiar os eventos organizados em cada dia 17 de Outubro para que a participação de pessoas em situação de pobreza continue a estar no centro do Dia mundial da recusa da extrema pobreza.
Não podemos contentar-nos com meias medidas, se quisermos avançar para um mundo « liberto do terror e da miséria » como está estipulado no Preâmbulo da Declaração Universal dos Direitos Humanos. O Padre Joseph Wresinski plantou um marco decisivo para a realização desta aspiração, quando mandou gravar, no dia 17 de Outubro de 1987, esta mensagem na Laje em honra das vítimas da miséria, da violência, da ignorância e da fome : « Onde os homens estão condenados a viver na miséria, aí os direitos humanos são violados. Unir-se para os fazer respeitar é um dever sagrado. »
Se estiver de acordo com esta mensagem gravada no mármore do Terreiro dos Direitos Humanos, em Paris, se estiver de acordo com o conteúdo da Declaração, assine-a, e diga por que o faz. (1) Fale nela, dê-a a assinar à sua volta. Todos esses milhares e milhares de gestos realizados, onde cada um de nós estiver, conseguirão unir, no dia 17 de Outubro de 2007 e nos outros 17 de Outubro que ainda estão para vir, todas e todos os que agem para transformar o seu « não » à miséria em laços, acções, palavras e gestos que se multiplicarão, criando, a pouco e pouco, ocasiões de aproximar pessoas de todas as origens, sem nunca esquecer os mais pobres.
O desafio da recusa da extrema pobreza e da construção da paz já está em marcha.
Huguette Redegeld Vice-presidente
(1) Pode enviar a Declaração de Solidariedade, uma vez assinada, para o endereço indicado no folheto aqui junto. Também pode assiná-la "em linha" utilizando o "sítio" web: www.atd-quartomundo.org
República Centro-Africana
«A nossa Associação consagrou-se aos pobres da aldeia e aos filhos deles. Muitos dos pais são ambos cegos; há uma viúva que trata dos próprios filhos e dos filhos dum parente que morreu. Há viúvas que são expulsas das suas famílias com crianças pequeninas, por questões de feitiçaria. Há outras viúvas seropositivas com filhos pequenos. A escolarização de todas estas crianças é muito problemática. Muitos de entre nós dizem para consigo: «que vida terão todas estas crianças?» Há muitos pais cegos que são levados pelos próprios filhos para mendigarem no mercado. Há outros que vão ajudar certas mulheres que têm pequenos restaurantes: elas dão-lhes os restos para comer, como salário. Depois da revolta que sacudiu o país em 2002-2003, todas as crianças andavam ao Deus-dará. Tinham perdido a noção da limpeza e do respeito para com os pais e para com as autoridades. Foi neste contexto que a Conferência de São Vicente de Paulo fundou um grupo de adultos para a cultura comunitária de um campo de culturas alimentares, e uma Associação dedicada aos órfãos para acabar com o banditismo. As crianças elegeram os seus 4 responsáveis e estão contentes por estarem juntas. Depressa mudaram de comportamento… Mas era preciso que um adulto as acompanhasse para as guiar… Numa reunião, perguntei: «Quem poderia aceitar este encargo com estas crianças?» Como ninguém respondeu, eu disse: «Vou tentar.» E foi a partir daí que eu passei a estar no meio das crianças que estão muito contentes com a minha presença. Puseram-se logo a chamar-me “papá”. A nossa primeira actividade foi a limpeza dos locais que estavam sujos, do campo de futebol, da escola da doutrina. Deram-nos 3 foices e uma bola. Depois, começámos a cultivar um jardinzinho e as crianças passaram a ir à escola. Deram-nos enxadas, pás, ancinhos, regadores e sementes. No fim do ano, apresentei 27 crianças a exame, de várias classes; 23 passaram de ano! Que alegria senti, por lhes ter sido útil! No mês de Junho de 2004, começámos um campo de 50m x 50m (feijão, soja, batatas, milho e sésamo).»
Mathieu B., Animador da Aldeia dos Pobres, República Centro Africana
BRASIL
«Na sexta-feira passada, dia 16 de Março, fizemos a reunião da equipa da biblioteca de rua com 15 amigos que vêm participando em nossos encontros há 3 meses. Para iniciarmos as nossas actividades, escolhemos o bairro que fica na parte alta da cidade e que está separado em duas comunidades: a dos camponeses que têm plantações e que vendem o que colhem no mercado, e outra, mais pobre, que vive em casas muito precárias que por vezes são feitas de papelão. A reunião realizou-se no ginásio de um amigo que nos apoia e que nos levou até aos moradores. Começámos por trocar ideias sobre o que é uma biblioteca, como fazer parte dela, e sobre quem poderia participar e entrar para a rede que ela forma: a autarquia, as escolas… Vimos um vídeo que fala da pobreza no nosso país. Pusemo-nos mais ao par das leis que dizem respeito às crianças e aos jovens, e da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Também reflectimos a partir duma “Carta aos Amigos do Mundo” (nº 63-64) onde o Ali fala da sua disponibilidade. Depois do almoço organizámos um ateliê de “contadores de estórias” com uma profissional que nos apoia. E quando estávamos começando os exercícios práticos propostos, chegaram 8 crianças que vinham ver o nosso amigo e que também participaram. Foi óptimo, pois assim pusemos tudo em prática. A reunião foi muito interessante e todos ficaram contentes por terem participado. No sábado fizemos a primeira biblioteca com 10 animadores. 12 crianças participaram mesmo, e houve 7 que ficaram olhando… Esses 7 estavam lançando suas pipas (ou papagaios, como se diz em Portugal) ou andando de bicicleta, mas quando começámos a contar a "estória" eles riam e prestavam atenção. Falámos da amizade e de solidariedade. Todos quiseram ler um livro e, mal acabavam, queriam logo outro… tinham muita vontade de ler! As crianças que se aproximaram, chegaram cheias de confiança e quiseram logo mostrar-nos onde moravam. Uma delas chamou a mãe para nós a conhecermos e tudo correu muito bem. Os adultos que se aproximaram estavam felizes com a nossa presença. Os animadores também ficaram muito contentes e virão hoje cá a casa para fazermos uma reunião de avaliação desta primeira actividade e para programarmos a biblioteca de sábado que vem.»
Mariana G., Eduardo S., Brasil
ARGENTINA
A mensagem do Pedro…
Numa zona da periferia de Santa Fé (Argentina), onde alguns operários coziam tijolos de barro, os moradores sabiam que o Pedro vivia num abrigo precário debaixo duma árvore. Vivia sozinho e doente, sem falar com ninguém e não permitia que ninguém se aproximasse. Viam-no quando ia vigiar o forno do patrão. Dizia-se que o salário dele era vinho à discrição e um prato de comida fria. Nestas condições, a saúde dele piorou e o sofrimento levou-o a aproximar-se dum grupo do «Movimiento Abolición de la Miséria» (MAM - Movimento para a Abolição da Miséria) para que o levassem ao hospital. A partir desse dia, sentindo que a sua dignidade era reconhecida, começou a revelar aquilo que nós intitulamos a “lição da sua vida.”
A Maria, voluntária do MAM, levou então o Pedro ao hospital, às urgências, onde o diagnóstico do jovem médico que o examinou, não deixou a menor dúvida. Tinha feridas nas mãos e nos braços e a pele estava em decomposição; o seu estado exigia uma hospitalização urgente. O acolhimento caloroso do jovem médico, tão diferente da solidão em meio da qual tinha suportado os seus sofrimentos, e a promessa que os amigos lhe fizeram de o irem ver no dia seguinte, fizeram com que o Pedro aceitasse a hospitalização.
O médico que o tratou não nos escondeu como iria ser difícil para o Pedro superar a dependência do álcool sem um grupo de apoio; o fígado já estava atacado. O Pedro ficou três meses no hospital e, como se sentia bem rodeado e respeitado, o seu estado melhorou nitidamente e até pôde propor os seus serviços a outras pessoas. Os doentes que não podiam sair da cama chamavam-no e ele ia ajudá-los. E, como sabia melhor do que ninguém o significado da solidão, revelou-se um verdadeiro bom samaritano. Às vezes havia doentes em período terminal que o chamavam pelo nome. Tinham medo de ficar sozinhos e pediam-lhe para lhes fazer companhia. Ninguém como ele conseguia aliviar os que sofriam, dar colheres de água aos que tinham sede, e fazer muitos outros gestos de amor. De tal maneira que os seus companheiros de enfermaria não queriam que ele se fosse embora do hospital e as próprias enfermeiras falavam da sua transformação.
Quando saiu do hospital, o Pedro foi viver com os outros moradores do grupo do MAM, que o acolheram de braços abertos. Aceitou ficar responsável por um grupo que foi intitulado “alcoólicos para uma vida melhor”. Chegou a hospedar um ou outro membro do grupo na sua casinha, e mandava-os ir ter com um voluntário para poderem arranjar uma consulta mais depressa e para eles poderem ser tratados como ele tinha sido. Como não conseguia formar um grupo estável, às vezes dava-lhe para beber, mas os seus esforços para largar o álcool podem resumir-se com a frase que pronunciava perante cada dificuldade: «não adianta falar, é preciso agir».
Um dia, o Pedro mencionou a data do seu aniversário. E todos resolveram festejar-lhe os anos juntamente com todos os seus êxitos. Quando o grande dia chegou, todos viram que ele estava à espera do bolo de anos, todo bem vestido e muito nervoso. E, quando verificou que tudo se realizava, que lhe traziam o bolo e que se ia fazer a festa, não foi capaz de suportar a própria emoção e teve que sair, dizendo: «Nunca pensei poder receber um dia um bolo de anos!». Estava muito comovido, quase a chorar, foi-se embora para beber, completamente só, e dormiu até ao dia seguinte. Quando voltou ninguém lhe falou no assunto. A aceitação deste tipo de situação é uma lição para os voluntários, pois todos devemos respeitar profundamente as pessoas doentes ou infelizes.
Uma noite, ao voltar para casa, afogou-se num fosso. Os amigos dele puseram uma cruz de madeira ao pé do fosso com a inscrição: «Descansa, índio». Chamavam-lhe índio por causa da sua tez acobreada. Puseram um ramo de flores na cruz e pediram ao padre da freguesia para lá ir rezar pela alma dele.
Alguns anos mais tarde, a Ester encontrou um amigo do Pedro que lhe disse que, desde a sua morte, tinha prometido que nunca mais beberia e que ajudaria os outros a tomarem a mesma decisão, para continuar o que o Pedro tinha começado. O Pedro deixou um testemunho muito forte, pois nos últimos anos da sua vida, conseguiu lutar pela sua própria dignidade e transmitir aos outros uma enorme esperança.
Maria C. da associação MAM, Argentina
Itália
Martine e Pierre Hosselet, voluntários de ATD Quarto Mundo, foram convidados pela associação « Chi rom e chi no » que trabalha em Nápoles com famílias ciganas que vivem em acampamentos não autorizados na periferia do grande bairro popular da Scampia. São eles que contam:
«No pátio da associação há vários grupos do bairro que se preparam para o cortejo junto dos carros decorados que estão muito bonitos e que levaram semanas a fazer. O tema da decoração é a comunicação. Num canto do pátio, Ema, Bárbara, Daniela, e mais alguns animadores maquilham as crianças e amarram-lhes na cabeça os chapéus de papelão pintado, com grandes fitas. O cortejo põe-se em andamento. Sendo muito comprido, é animado por um grupo de músicos que vieram de Roma e por uma trupe de espectáculo de rua. Há outras associações representadas como os escuteiros, a ludoteca, etc. As crianças reflectiram muito sobre a comunicação e os animadores escreveram em folhas de papel as reflexões das crianças. Estas folhas foram postas no carro decorado. No fim do cortejo, o que for bom a nível de comunicação será guardado, e o que for mau será queimado. Aquilo que é bom ultrapassa de longe o que é mau, mas as crianças lamentam que a escola não saiba incentivar aqueles que têm poucos meios. O cortejo atravessa todo aquele subúrbio de Nápoles durante mais de duas horas, com música, tambores e farândolas, há muita gente nas janelas, mesmo nos andares mais altos. A maioria das pessoas que participam têm visivelmente uma vida dura, mas hoje todas as que levam ao colo as crianças fantasiadas dos pés à cabeça como se fossem bonecas têm um ar todo vaidoso. É tudo muito bonito e comovente. A um dado momento, o cortejo entra no pátio dum prédio que é normalmente um lugar onde estão traficantes de droga, que nem sequer se escondem e que fazem reinar o medo em todo o bairro. Há muitos pais que saem de casa para ver o espectáculo. « E nesse momento houve naquele pátio uma invasão de cores, de sons, de crianças, de tambores e de gente; de um lado estavam os traficantes imóveis e vestidos de escuro que nos observavam; em frente estava a alegria de viver e as danças das crianças e dos adultos que os desafiaram durante uns instantes.» Comenta a Ema. O fim do cortejo é numa espécie de parque de estacionamento, num baldio afastado dos prédios, cheio de velhos electrodomésticos abandonados. Desfila-se pela última vez, as pessoas que deitam foguetes marcam um círculo no terreno, e queimam-se alguns carros do cortejo no meio, juntamente com as folhas de papel que representam o lado « mau » da comunicação.
No dia seguinte reunimo-nos com todos os animadores de « Chi rom e chi no », para uma troca de impressões amigável. Um deles levou o jornal de Nápoles onde tinha saído um artigo sobre o "Carnaval" e uma fotografia do carro decorado por eles. Todos apreciam o artigo, mas todos assinalam e reprovam a palavra « assisti », utilizada pelo jornalista ao falar das famílias ciganas. Todos apreciaram os momentos de amizade que passaram connosco. Eles precisam de se sentir apoiados, pois a escolha que fizeram de ir ao encontro das famílias ciganas e de lidar com elas como se lida com toda a gente, sem lhes colar nas costas as etiquetas maldizentes do costume, é frequentemente mal compreendida.