Dezembro de 2007
EDITORIAL
Um novo alento mais forte do que a miséria. Os meios de comunicação do mundo inteiro trazem-nos quase sempre notícias graves e alarmantes: guerras, corrupção, injustiças, cataclismos, milhões de pessoas vivendo abaixo do limiar da pobreza, milhares de desalojados que sobrevivem pedindo esmola nas ruas dos países denominados “ricos”…
Mas terão eles anunciado a grande esperança que se manifestou através da campanha “Recusar a extrema pobreza, um caminho para alcançar a paz”? Terão eles anunciado os milhares e milhares de mensagens que acompanhavam a Declaração de Solidariedade e que revelavam uma imensa solidariedade, uma imensa ternura e uma imensa sede de justiça? A diversidade dos assinantes vindos de 152 países força a admiração: uma grande quantidade de jovens, adultos, aposentados, crianças… E de todas as classes sociais: camponeses, professores, artesãos, estudantes, comerciantes, desempregados, artistas, atletas, professores universitários, pessoas que mal sabiam ler ou escrever… e tantos mais.
Este ano, a comemoração do 17 de Outubro, Jornada Mundial para a Eliminação da Pobreza, teve um brilho e um vigor excepcionais: em Paris, junto da primeira Laje gravada em honra das vítimas da miséria, e em numerosos e diversos outros locais por esse mundo fora. Quer se tenha tratado de um evento de projecção mundial, quer de um pequeno ajuntamento num bairro ou numa aldeia, as convicções e a solidariedade manifestadas nesse dia tinham a mesma força. Uma força que poderá acarretar mudanças positivas. Nesse dia 17 de Outubro, os milhares de assinaturas e os comentários que as acompanhavam foram entregues solenemente ao Secretário-geral das Nações Unidas e a personalidades públicas de vários países. E houve jovens que foram ao encontro de outros jovens com as Caravanas Europeias da Solidariedade. Houve crianças que partilharam os seus sonhos com outras crianças, dando razão àquele sem-abrigo de Paris que disse: «É com as crianças que é preciso começar a mudar as coisas. Nós, amanhã, já cá não estaremos. Elas é que hão-de fazer o mundo depois de nós.»
O próximo número da “Carta aos Amigos do Mundo” dará a maior repercussão possível a tudo isto. Tentemos todos avaliar este novo alento que inspira e arrasta tanta gente em tantos países. Continuemos, cada um de nós e todos juntos, a ser actores deste corrente mundial de recusa da miséria, originada pela vida e pelo compromisso total de Joseph Wresinski (fundador de ATD Quarto Mundo) - um homem que consagrou a sua vida, a sua inteligência e o seu espírito às vítimas da fome, da miséria e da violência, para lhes render homenagem e para assim, com elas, transformar as nossas sociedades. Huguette Redegeld Vice-presidente
Campanha de saúde no bairro Kokoro, na República Centro-Africana
O meu bairro, Kokoro Boeing, fica ao sul da capital, Bangui, perto do aeroporto. Tem 32000 habitantes e muitos deles são jardineiros e camponeses; há alguns funcionários. O bairro nunca foi urbanizado: não há estrada para os carros poderem ir, se for preciso, ao hospital; não há água potável, nem electricidade, nem esgotos.
Moro neste bairro desde 1972. Durante os meses de Novembro e Dezembro estamos sossegados porque é a estação seca; mas a partir de Abril, quando voltam as chuvas o bairro fica normalmente inundado e vivemos no meio da água, as crianças nem podem ir brincar com os amigos e também é muito mau para a saúde delas. O mercado também fica inundado, a gente nem sabe onde pousar as coisas que trouxe do campo para vender. Há pessoas, que são as mais pobres, que quando chove e elas foram para o campo, quando voltam para casa, a casa delas foi abaixo. Nós, os mais pobres, quando as nossas casas caem, para onde havemos de ir? Quem nos vai abrigar?
Sou uma amiga do Movimento ATD Quarto Mundo desde 2003 e desde essa data, com os voluntários, temos circulado muito pelo bairro para conhecermos as famílias, muitas das quais têm filhos doentes. Por isso, este ano, lançámos uma campanha de saúde e começámos por sensibilizar pequenos grupos de mães. Elas formaram grupos, reflectiram, e foram elas que tiveram a ideia de limpar os canais do bairro e o canal Kokoro. Elas queriam fazer esse trabalho de limpeza mas sabiam que tinham pouca força. Foram então ter com os maridos e com os filhos para lhes falarem do assunto. E os homens puseram-se de acordo para irem falar com os chefes do bairro. Estes prontificaram-se a ir de porta em porta para pedir dinheiro, de modo que os que fossem fazer a limpeza pudessem continuar a comer.
Foram sobretudo os jovens que fizeram o trabalho. Há 6 grupos, cada qual com os seus responsáveis e o seu local. Quando o trabalho começou, os jovens chegavam entre as 7h30 e as 8 e trabalhavam até às 13h. No princípio, foi preciso limpar o mato das margens com machados e depois fazer buracos para a água se poder escoar. Em certos lugares foi muito complicado porque a água não se escoava por causa das barragens que tinham sido feitas para a pesca tradicional. Havia também as cobras de água, as sanguessugas, os cacos de garrafas e montes de imundícies…
Certos grupos trabalhavam ao sábado, outros, 2 dias por semana, outros, vários dias a fio.
São sobretudo os solteiros que podem trabalhar mais, mas durante pouco tempo seguido porque, como em África o núcleo familiar é alargado, quando eles voltam para casa têm que levar alguma coisa, têm que levar de comer.
Certos dias, havia uns 20 na limpeza, outros, uns 4 ou 5. Alguns já acabaram o trabalho que queriam fazer, outros ainda não. Certas mães ajudavam no trabalho, outras levavam água, café e folhas de mandioca para comer aos jovens que trabalhavam.
Como, com a ajuda de toda a população, nós conseguimos o que queríamos para a saúde dos habitantes do nosso bairro, fizemos uma festa no sábado, 14 de Abril. As autoridades estavam presentes e nós partilhámos com elas o que tínhamos realizado e pedimos-lhes para fazerem a manutenção do trabalho de limpeza. Houve um desafio de futebol, e uma exposição de pintura e de fotos tiradas durante o trabalho. Comemos todos juntos, dissemos adeus uns aos outros e todos voltaram para casa.
Acabo aqui a minha carta, lançando um ramo de flores para todos os jovens do mundo que se reúnem para afastar a miséria e também para todos os jovens do meu bairro Kokoro. Acho que este ano não vai haver inundações em Kokoro, e que quando regressarmos do campo poderemos entrar nas nossas casas e dormir descansados.
Louise, Kokoro-Boeing, República Centro Africana
História da associação Tsiry
Chamo-me Niry e sou duma aldeia chamada Sahamadio que fica a 11 quilómetros de Ambatolampy, a 70 quilómetros ao sul de Antananarivo. Tive a sorte de frequentar a escola primária na minha aldeia, e depois o meu pai meteu-me no colégio das Irmãs, em Antisrabe, como aluna interna, para eu continuar a estudar até ao 12º ano. Sou casada, tenho dois filhos, e vivo agora em Antananarivo. O meu marido é jardineiro e eu sou mulher-a-dias.
Um domingo, na igreja da minha aldeia, havia jovens que liam textos. Liam muito devagar, decifravam cada palavra com muita dificuldade. Fiquei cheia de vergonha. Depois da missa perguntei aos pais: «O que havemos de fazer para tirar a nossa aldeia desta miséria? Alfabetização?» Mas os jovens precisam de trabalhar para comer… Alguns pais acharam que devíamos começar pelas crianças. Há muitas crianças que vivem no mato, nos arredores da aldeia. Muitas delas têm que andar 10km a pé de manhã e à noite para irem à escola. Perguntei aos pais se eles aceitariam fundar uma associação, mas ninguém sabia como. Aconselhei-me com todos quantos encontrava.
Em 1987, ao cabo de um ano de diligências, a associação foi fundada e reconhecida oficialmente. O seu nome, “Tsiry”, dado pelos pais, significa um rebento que nasceu, que irá crescer e expulsará a pobreza da aldeia. Já começámos a recolher as cotas dos pais, 1000 Ar por ano. Também comprámos legumes, feijão, milho e arroz na altura da colheita quando os preços são mais baixos, e vendemo-los no fim da estação para termos algum benefício. Com esse dinheiro comprámos material escolar e começámos por pagar as propinas a 3 crianças que tinham obtido o diploma dos estudos básicos e mandámo-las para o colégio das Irmãs de Fianarantsoa. Uma dessas crianças acaba de fazer o 12º ano. Uma das Irmãs disse-nos que os pais podiam receber uma formação com a “Inter cooperação Suíça”. Foi assim que eles aprenderam a bordar e a trabalhar com produtos locais como as batatas, o milho ou o foie-gras… Também receberam formações para criar galinhas e para fazer mel. Vendemos tudo isto no mercado e até tivemos contactos com estrangeiros.
Com o dinheiro da venda destes produtos, pagámos as despesas do colégio e em 2003 alugámos uma sala na aldeia de Ilhazolava, onde há uma escola com ensino secundário. Tínhamos 2 camas de dois lugares, uma para os rapazes e outro para as meninas. Chegámos a pôr 5 ou 6 crianças em cada cama. Pagávamos o almoço na cantina da escola e cada criança trazia para casa alguma lenha para o aquecimento e para todos cozinharem à noite. Fomos pondo mais camas e passámos a poder acolher mais crianças. Os pais revezavam-se para que houvesse sempre um adulto com as crianças. Nesse mesmo ano, a associação conseguiu comprar um terreno e os pais foram construindo uma casa de graça.
Durante 4 anos tivemos um subsídio da Inter cooperação. Com ele pagávamos as matrículas, a cantina, o material escolar e as deslocações das crianças. Agora, já perdemos esse recurso que não foi renovado e vamos começar o ano unicamente com as nossas próprias forças.
Neste momento, há 22 crianças no centro, e financiamos a escolaridade de outras 9.
Niry, Madagáscar
Correio dos Leitores
*«Venho pedir-vos desculpa pois, até hoje, tenho sido unicamente “consumidora” da “Carta aos Amigos do Mundo”. Apesar disso, leio-a sempre com muito interesse e admiração, e muitas vezes digo a mim própria que também eu sou às vezes testemunha de gestos de coragem, de bondade ou de solidariedade das pessoas mais pobres. Já uma vez ou outra tenho dado a ler o vosso jornal aos jovens que acompanho, mas geralmente não consigo arranjar interlocutores…» Irmã Rose-Marie B., Burquina-Faso
*«Todos os membros da nossa Organização querem dizer-lhes um grande “muito obrigado” pela Carta que recebemos três vezes por ano. Ela traz-nos as experiências vividas por muitas pessoas, os programas que elas lançam e realizam. Tudo isto é para nós muito proveitoso, também nós ganhamos experiência. Apesar de nos debatemos constantemente com problemas financeiros, esperamos um dia chegar à nossa meta.» Roster R. M., Tanzânia
*«É sempre com grande prazer que tenho recebido, de há três anos para cá, a “Carta aos Amigos do Mundo”, que guardo preciosamente e que nos dá a conhecer o desenvolvimento do Fórum, e também as dificuldades que os outros têm, e aquilo que os nossos amigos fazem para lutar contra a extrema pobreza. Há vários testemunhos que nos encheram de admiração. A escola infantil “de l’Avenir” que nós fundámos e onde entraram 47 crianças que nunca tinham posto os pés numa sala de aula, é dirigida por dois voluntários. E os pais, que estão muito contentes, levam-lhes de comer.» Jules T., Liga dos Direitos Humanos dos Camarões
*«…Para lutar pela erradicação da pobreza… colaborei em campanhas como “calor e amor”, durante a guerra das Malvinas, nos “bairros difíceis de Palermo”, durante a inundação de 1985, e em mais coisas ainda, e aprendi que todos juntos conseguimos fazer muito mais. Quando as necessidades de base já foram satisfeitas, podemos mais facilmente fazer face às adversidades da vida, e de qualquer modo podemos empenhar-nos em dar (às pessoas pobres) as mesmas coisas de que nós próprios beneficiamos todos os dias, sem muitas vezes as apreciarmos. Pessoalmente, tenho projectos e ideias realizáveis, mas não posso fazer nada sozinha. Há coisas simples e fáceis de realizar para as quais as pessoas poderiam colaborar sem grande esforço e sem grande exigência de partilha pessoal, mas pelo contrário através de esforços feitos em comum. Não se trata de menosprezar aquele que possui muita coisa ou que é “rico”, pois há gente solidária e sensível em todos os meios. O que às vezes acontece é que as pessoas não sabem o que fazer nem como contribuir. O nosso papel é sermos os propagadores da ideia de que “todos podemos contribuir”. Maria Teresa L. V., Argentina
*«Gostaríamos muito de receber mais “Cartas” como esta. No nosso país nós vamos lançar um movimento para incluir as pessoas pobres, para elas não serem excluídas da sociedade. Ficamos muito felizes ao vermos que no mundo inteiro há pessoas que se empenham contra a pobreza e que combatem a extrema pobreza.» Musa F. K., Aruna T., Serra Leoa
DIALOGUEMOS.…... PARTILHEMOS.….... DIALOGUEMOS ..…. PARTILHEMOS…
REFLEXÕES SOBRE OS ACTUAIS MEIOS DE COMUNICAÇÃO
Como apropriar-se os actuais meios de comunicação? A comunicação foi durante muito tempo um instrumento de ligação entre os homens. E ainda é um meio muito eficaz que eles têm para se compreenderem, para avaliarem o seu grau de pobreza e para se consolarem. Uma dada situação ou um problema só podem ser conhecidos pelos outros através da palavra, que é o elemento básico da comunicação. Quanto aos meios de comunicação actuais, eles ainda são um luxo nos países pobres, são ainda um conforto a que, neste 21º século, as massas mais pobres dificilmente aderem. A comunicação apazigua os corações magoados pelas guerras e pela fome, e suaviza o espírito. Com a comunicação é possível criar uma atmosfera de amor, de paz e de bom entendimento. Os meios actuais podem desempenhar o mesmo papel se toda a gente tiver a possibilidade de os utilizar.»
Esther A., da ONG “Jeunesse épanouie”, Togo
Mais de 5000 « refugiados dos cibercafés »
Calcula-se que no Japão haverá mais de 5000 “refugiados dos cibercafés”, na maioria jovens que, muitas vezes sem recursos para alugar um apartamento, passam a viver permanentemente nos cibercafés que ficam abertos 24h por dia - revelou ontem um estudo do governo. Os meios de comunicação japoneses já há meses que vêm alertando para este problema, que atinge particularmente jovens com um trabalho precário que não ganham o suficiente para se poderem alojar… Nos cibercafés é possível por vezes comer e até tomar um duche ou comprar roupa interior. (…) O ministério da Saúde e dos Assuntos Sociais pensa enviar conselheiros a estes “refugiados” para os ajudar a arranjar um emprego mais bem remunerado e a gerir o seu orçamento para se poderem alojar. Este fenómeno ilustra o aumento das diferenças sociais no Japão desde a recessão económica dos anos 90. (…)
Jornal “La Presse”, Quebeque, 29 de Agosto de 2007
Conferência sobre o desenvolvimento da Internet em África (Kigali)
Uma conferência internacional sobre o desenvolvimento da Internet em África, continente que acusa um importante atraso neste sector, iniciou os seus trabalhos na segunda-feira passada em Kigali. «O objectivo desta cimeira será discutir sobre a aplicação de estratégias que permitam que o continente africano ponha as tecnologias da informação ao serviço do desenvolvimento», explicou o secretário-geral da União internacional das telecomunicações, Hamadoun Toure, que participa na organização deste encontro. Além do presidente do Ruanda, Paul Kagame, seis chefes de estados africanos, Amadou Toure (Mali), Bingu Wa Mutharika (Malawi), Blaise Compaoré (Burquina-Faso), Aboudoulaye Wade (Senegal), Ismael Omar Guelleh (Djibouti) e Pierre Nkurunziza (Burundi), participam na conferência “Conectar a África” que encerrará terça-feira. «300 milhões de dólares serão, no mínimo, investidos em projectos visando a promoção dos TIC (tecnologias da informação e da comunicação) em todo o continente africano até 2012», explicou o Presidente Toure, sublinhando que para uma tal iniciativa é necessária a implicação activa do sector privado.
Agence France Presse, 29 de Outubro de 2007-11-15
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O diálogo sobre a comunicação e sobre os meios actuais de comunicação começou com a Carta aos Amigos do Mundo nº 61 e continuou no nº 65.
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