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Viver o Evangelho em família

Padre Joseph Wresinski, Cadernos de Baillet, edições Quarto Mundo. Tradução de Carlos Rodrigues
sexta-feira 20 de Janeiro de 2006.
Viver o Evangelho em Família foi escrito pelo Padre Joseph Wresinski para a quinta jornada da Associação ANPAP que aconteceu a 12 de Março de 1988 em Erpent, Bélgica. Este contributo do Padre Joseph foi lido aí por Alwine de Vos van Steenwijk, então presidente do Movimento Internacional ATD Quarto Mundo, após o desaparecimento do Padre Joseph a 14 de Fevereiro de 1988.

VIVER O EVANGELHO EM FAMÍLIA

PADRE JOSEPH WRESINSKI

CADERNOS DE BAILLET


Edições Quarto Mundo

Tradução de Carlos Rodrigues

Os Cadernos de Baillet publicam textos escritos pelo Padre Joseph Wresinski, assim como ensaios sobre a sua vida e o seu pensamento, que tentam apresentar vários pontos de vista sobre a sua personalidade.

CADERNOS DE BAILLET
colecção
sob a responsabilidade
da Casa Joseph Wresinski
(Baillet-en-France)


 Viver o Evangelho em Família foi escrito pelo Padre Joseph Wresinski para a quinta Jornada da Associação ANPAP, que aconteceu a 12 de Março de 1988 em Erpent, Bélgica. Este contributo do Padre Joseph foi lido aí por Alwine de Vos van Steenwijk, então presidente do Movimento Internacional ATD Quarto Mundo, após o desaparecimento do Padre Joseph a 14 de Fevereiro de 1988.

 

ÍNDICE

Mensagem

I. A FAMÍLIA DE JESUS, ESCOLA DE DESPRENDIMENTO

 A interrogação secular sobre a pobreza 

II. A FAMÍLIA, CAMINHO DE EVANGELIZAÇÃO

 As famílias mais pobres, mensageiras de Jesus Cristo


Mensagem

Este pequeno livro é uma prenda de Deus, que não podemos ignorar nem arrumar em qualquer canto da nossa casa. Antes, agradecer e vivamente.
Desperta-nos para a dimensão divina da dignidade com que nasce cada homem, dignidade que é fonte de direitos, deveres e valores que nunca poderão deixar de ser tidos em conta por todos, mas mesmo por todos.
É que, por vezes, queremos que estas considerações, seguidas por eventuais deveres, se estendam e dirijam só aos que mandam.

A melhor ajuda que se pode prestar a uma pessoa, antes da ajuda do pão da mesa ou de qualquer outro bem material, é, e sempre, despertá-la para a sua dignidade. Enquanto tal não acontecer, estará sempre disponível para todo o tipo de manipulação, abandono e marginalização. E aqui se encontra a primeira e mais abundante fonte de pobreza e de miséria.

É urgente que as pessoas sem nome - e são tantas - descubram claramente que as letras pequenas também escrevem livros, enquanto as grandes ou maiúsculas só escrevem os títulos dos mesmos livros. Isto para que se saiba que sem letras pequenas, isto é, sem gente anónima, não se escreve nem se constrói história.

Todo o esforço realizado e conduzido por esta preocupação leva àquilo a que chamamos CIDADANIA e, a seguir, à autêntica DEMOCRACIA.

Nestas perspectivas, fico encantado com o Movimento ATD QUARTO MUNDO, exactamente porque procura ajudar as pessoas a serem gente. Este é o seu primeiro e incontornável objectivo, que não podemos deixar de sublinhar e de louvar.

O Padre Joseph Wresinski aparece neste tempo como um profeta de Deus que vem chamar a atenção, com palavras e com obras, para a importância do Homem, que deve ser sempre o Centro, o Fundamento e o Critério da História.

Prefaciar este livro, a mim sabe a profanação. Ele todo e a sua mensagem são para ser "comidos" sem perda de tempo.

Felizmente já instalado em Portugal, que ATD Quarto Mundo

Viva, Cresça, Floresça

+ Manuel Silva Martins, Bispo 


I. A FAMÍLIA, ESCOLA DE DESPRENDIMENTO

 A interrogação secular sobre a pobreza

< Todas as crianças do mundo são pobres. Porquê uma tal afirmação, logo de entrada?

Sim, todas as crianças do mundo são pobres, pela simples razão da sua total dependência dos adultos e do meio que as rodeia. A sua procura, a sua descoberta da afeição, da alegria, da paz, da luz e da beleza não é verdade que dependem da partilha que com elas fazem ou não fazem aqueles que as rodeiam?

  Mas nós sabemos bem que há crianças, por esse mundo fora, que nunca terão a sorte de poderem descobrir a terra que é nossa, nem os homens que a constroem e a transformam. Há crianças nascidas de pais e rodeadas por uma vizinhança que nada têm para partilhar entre si, porque vivem com demasiadas dificuldades. Estas são as crianças da miséria.

  Encontramo-nos, pois, de chofre, frente a duas categorias de crianças. E igualmente frente a dois tipos de pobreza: a que nasce da dependência e a que vem da miséria. A primeira é uma pobreza que só dura algum tempo e que permite ao homem crescer e construir um amanhã. A segunda é uma pobreza que destrói e que impede o homem de crescer, de ter esperança e de acreditar num futuro.

  Quando falamos de pobreza, devemos estar conscientes desta diferença; ela suscitou e suscita ainda hoje muitas reflexões e debates. E isto desde os inícios da Igreja. O exemplo mais característico é o das Bem-Aventuranças. Na verdade, lemos em Lucas: "Felizes os pobres." A exclamação não vai mais longe. Mateus, por sua vez, dirá: "Felizes os pobres em espírito." Assim, Mateus permite-nos dar à pobreza um sentido espiritual e de escolha livre. Ser pobre sob a influência do Espírito Santo permite a cada homem, mesmo rico, usufruir das Bem-Aventuranças, na medida em que souber desprender-se dos bens terrestres, sejam eles quais forem.

  Hoje, convosco, eu gostaria de reviver este debate; desejaria fazê-lo reviver, porque sei que o vosso coração foi tocado pelas injustiças que habitam o nosso mundo, foi tocado pelo facto de haver milhares e milhares de famílias que vivem, todos os dias, na miséria. Famílias que estão condenadas a investir todas as suas energias na luta pela sobrevivência. Famílias que são desprezadas, que estão gastas pela fome, pela ignorância e pela exclusão de que são vítimas. Sei que tudo isto vos tira a paz.

  Sei que estais abertos, que estais prontos a responder à vossa vocação cristã reconhecendo que "Cada homem é meu irmão por e em Jesus Cristo." Sinto também que quereis dar condições aos vossos filhos, para que cresçam no mesmo espírito de respeito pelo próximo mais pobre, como já vos foi ensinado pelos vossos pais.

1. Para onde olhar, a fim de compreendermos a nossa missão?

  Mas então, como mudar esta situação, este estado de coisas, me direis vós? Esta é a primeira questão que nos vem à ideia e eu sei que ela vos importuna profundamente. Claro que vedes com sinceridade o estado do mundo, da sociedade, das nossas paróquias, das nossas famílias. Estais pois conscientes de que, apesar de todos os ideais que vos habitam, a injustiça continua sempre presente. Sabeis que uma parte da população continua à margem e que sofre com isso horrivelmente; sabeis que isto acontece mesmo nas vossas paróquias, nos vossos bairros, aldeias, cidades, no vosso próprio país.

  Muitas vezes, sem vos dardes conta disso, acomodais-vos e não dais saída a estas situações. Mas basta um acontecimento doloroso, uma época de muito frio, a morte de um homem da rua, uma emissão sobre a fome no Sahel [1] para despertar na vossa memória a vida das famílias, para vos tornar presente o sofrimento dos mais pobres.

  Assim, em Janeiro passado, ficastes chocados com aquele casal que, por causa da sua pobreza extrema, procurava "dar" o filho ainda antes de ter nascido, pois queria assegurar-lhe um futuro.

  Frente a tais sofrimentos, estais de acordo que não podemos afirmar que todos nós somos pobres, limitados; que todos nós estamos feridos. Além disso, frente a um tal abandono vivido pelos mais pobres, como responder às perguntas que nos fazem os nossos filhos? Como enfrentar as disputas dos adolescentes que, nas nossas famílias, em nome da justiça, recusarão empenhar-se nas paróquias, porque aí não são acolhidos os mais pobres? Nós ensinamos aos jovens que os mais pobres são irmãos de Cristo e os preferidos de Deus. Ora, que provas disso lhes damos nós? Isto inquieta-nos. Interrogamo-nos como fazer melhor, como fazer de outra maneira. Para compreendermos a nossa missão, para medirmos a nossa responsabilidade, voltemo-nos para a família de Jesus. Família esta que, sendo a do Filho de Deus, deve por nós ser olhada como a família modelo entre todas. Com efeito, é através dela que Jesus nos ensinou o que é, o que deveria ser realmente uma família que não cesse de fazer referência aos mais pobres do seu tempo, uma família missionária.

  Olhando para a família de Jesus, não podemos negar que Deus escolheu para o seu Filho a miséria como caminho para salvar a humanidade inteira. Nascido fora da cidade, morto fora da cidade, Ele sabe por experiência o que é a miséria, o que é a exclusão. A tentação no deserto confirma que também para Cristo se trata, com efeito, de uma escolha e não do resultado de um acaso de circunstâncias. Na hora da tentação, Ele escolheu livremente o projecto do Pai. Na verdade, sabia que, assumindo a condição do mais miserável dos homens, podia salvar todos os homens, sem que um só ficasse de fora. Sabia que, assumindo tal condição, permitia ao mais miserável dos homens afirmar doravante e sem a menor contestação: "Cristo também veio para mim."

  Por conseguinte, é descobrindo a família de Jesus que nós poderemos, a seguir, interrogar-nos sobre as nossas responsabilidades de crentes, de homens e mulheres crentes, hoje e aqui. É descobrindo a família de Jesus que nós poderemos ver, com mais clareza, como fazer para destruir definitivamente a miséria. Descubramos pois, em conjunto, a família de Jesus. Vejamos de que família se trata.

2. A família de Jesus 

  A família de Jesus é uma família comum, uma simples família do povo. Nela Jesus nasceu, como nascem todas as crianças do mundo. Nela Jesus cresceu, como crescem todos os meninos, ao cimo da terra. Jesus não evitou, pois, o nascimento, nem a infância, nem a adolescência. Não veio já adulto, como o esperava Israel; pelo contrário, como o afirma Lucas por duas vezes, "cresceu em tamanho, sabedoria e graça diante de Deus e dos homens."

  Seus pais, como todos os pais, tiveram que construir uma vida de casal, um lar. Maria e José não entraram na história da humanidade repentinamente, como por encanto. Também eles tiveram uma infância, uma adolescência. Só a intervenção do anjo viria perturbar-lhes a vida, abalar a ordem habitual das coisas e introduzi-los no conflito.

  Mas, apesar da gravidez de Maria, José acolheu-a, porque a amava profundamente. Neste sentido, a família de Jesus aparece-nos como particularmente única na sua pobreza. Mas não será ela única ainda por outros motivos? Olhando-a de perto, damo-nos conta que, desde o início, nos aparece como uma família desenraizada, uma família sem renome habitando uma terra perdida, uma família originária de um lugarejo da Galileia cuja localização até seria difícil de achar naquela época, pois nada de assinalável o punha na ordem do dia.

  Com efeito, José, filho de David, não encontra lugar em Belém que era, no entanto, a terra de seus antepassados. Aí ninguém o espera. Aí ninguém anseia por ele. Aí encontra-se a mais e, por conseguinte, é obrigado a ficar de fora, na rua com a esposa grávida. Só tendo para lhe oferecer, como único refúgio, uma gruta, encontra-se, juntamente com Maria, numa situação de excluído entre os excluídos do país.

  Uma gruta que, naquela época, servia de refúgio aos pastores. Sobretudo para os que não tinham trabalho, no Inverno, e que de seu só tinham algumas ovelhas. Servia ainda de refúgio, sem dúvida, a outros pobres, a fugidos à justiça, a malfeitores. Muito provavelmente também lá se refugiavam alguns Zelotas que se opunham ao domínio romano. Lucas fala-nos de "todos os ouvintes" que estavam encantados com o que diziam os pastores sobre o Menino, quando Jesus veio assim ao mundo, fora da cidade, num sítio frequentado por excluídos. É por isso que eu imagino a gruta cheia, apinhada de pessoas que, como Maria e José, se encontravam sem casa.

  Jesus nasceu, pois, no meio do mundo da miséria. E é, apesar da sua nudez extrema, e talvez mesmo por causa dela, que este Menino e seus pais se tornam um centro de interesse. Pois, quando uma criança nasce num tal despojamento, isso provoca sempre gestos de solidariedade e de ternura. Verifiquei isso em todos os cantos da terra por onde passei. Vi-o em Nova Iorque, no apartamento de uma família que, mesmo sem ter dinheiro para se alimentar a si própria, acolhia todos os que lhe pediam refúgio. Na casa deles não havia diferenças de classe nem de raça. E a mãe repetia: "Não posso deixá-los lá fora."

  Certo dia, uma jovem mãe, ao sair do hospital, veio refugiar-se lá em casa com o filho recém-nascido para escapar aos funcionários da Segurança Social que lho queriam tirar. Então, como em Belém, toda a vizinhança meteu mãos à obra para a ajudar. Uma outra família pobre ofereceu o berço. As crianças foram de porta em porta pedir leite, roupas...

Quando os funcionários sociais descobriram a mãe e o menino, a família que os acolheu e a vizinhança defenderam-nos e, mostrando o berço, disseram-lhes: "Vejam. Pensámos em tudo. Até há uma cama só para ele." 

  Não terá sido assim que as coisas se passaram em Belém? Sem dúvida alguma, as pessoas, ao verem Maria, José e o Menino, foram à procura de leite para a mãe, de alimentos. E devem ter dito uns para os outros: "Não podemos deixá-la neste estado." Deste modo, Jesus, porque frágil e dependente como todos os recém-nascidos - e, além disso, porque a pobreza da sua família o punha numa situação particularmente delicada - provoca o amor dos que o rodeiam.

  Os pastores, habituados a viver ao relento, tratados como grosseiros, como incultos - e a quem nunca tinha passado pela cabeça que o Messias viria no meio deles - tomam consciência, em presença de uma criança deitada numa manjedoira, que este Menino está assinalado por Deus; dão-se conta de que este Menino lhes é dado a eles, gente de miséria e de sofrimento. Lhes é dado a eles, gente obrigada a lutar para sobreviver, gente obrigada por vezes a roubar. Lhes é dado a eles, pastores sem direito a testemunhar em justiça e considerados como impuros. A eles, judeus considerados indignos de aprenderem a Tora. Mais ainda, estes pastores, estes suspeitos, estes ignorantes descobrem nesta criança a glória de Deus, captam e compreendem o plano da Salvação. Adivinham que esta família é testemunha do amor de Deus.

  Se, por causa do seu despojamento, esta criança atrai a vizinhança, podemos dizer que atrai ainda outros "veladores" na noite. Penso nos Magos, obcecados pela ciência, pela compreensão do universo, para que o mundo se transforme. Penso nos Magos que, atentos aos sinais, observam uma estrela no céu e captam que esta lhes anuncia uma realidade nova. Então, põem-se a caminho. Nada nos impede de pensar que muitos outros viram esta estrela naquele momento. Os Magos, porém, foram os únicos que estavam prestes a agir, a deixar o seu país, a abandonar a segurança do seu conforto. E, porque aceitam desprender-se de tudo, tornam-se capazes de encontrar uma resposta à sua expectativa. Também eles encontram o Menino, Maria e José num perfeito estado de despojamento e, no entanto, põem-se de joelhos.

  Será no Templo que Maria, José, toda a família se porá de novo numa atitude de grande pobreza. O Templo para os judeus é o local da Fé. O Templo é para eles o trono de Deus, o sinal da sua presença real. É, por conseguinte, no Templo que todos os pais devem oferecer o seu filho primogénito. Os mais pobres devem oferecer duas pombas para resgatarem o seu filho mais velho. Maria e José não têm possibilidades de fazer melhor. Que grande manifestação do "abaixamento" de Deus, cujo Filho único não vale mais que duas pombas e, mais tarde, trinta moedas.

  Jesus, uma vez adulto, recusará esta exploração que os sacerdotes, os sábios, os abastados assim fazem de Deus Pai. A base da sua crítica do Templo e dos que exercem um poder religioso repousará sobre o facto de atravancarem o acesso do povo e, sobretudo dos mais pobres, ao Senhor. Jesus deitará por terra as bancas dos mercadores, expulsará os vendedores e recusará todos os sacrifícios sangrentos reservados aos ricos e que eram considerados como único meio para obter o perdão de Deus. É que para Ele o perdão de Deus não pode estar reservado só aos que têm possibilidades de comprar um boi ou um cordeiro. Não, Deus não se deixa comprar. Deus dá-se a todos e, primeiramente, aos mais "sem-nada", aos mais esfomeados, aos mais sequiosos, ou seja, aos mais aptos a acolhê-lo. É por isso que apresenta o seu Filho pelo preço de duas pombas, por uma oferta de pobre.

  É no Templo que Simeão, homem despojado de tudo e todo ele à espera do Salvador, compreende o sentido da Salvação, ao receber nos braços este Menino pobre. Mas também profetiza a agitação, as recusas que este Menino provocará, uma vez adulto. Profetiza a queda de muitos, pois a vinda deste Menino não terá um impacto somente religioso. Essa queda abrangerá todos os campos da vida política, como da vida social. Herodes, detentor violento do poder, sente-o bem. Detesta por instinto este Menino e está pronto a assassiná-lo, pois sabe que Jesus, filho da pobreza, põe em perigo o seu poder.

Sem dúvida alguma, este recém-nascido, ao dar esperança aos excluídos, desperta as rivalidades e as angústias dos que nunca aprenderam a desagarrar-se, a ajoelhar-se. Uma grande angústia habitará doravante os poderosos. A angústia de saberem que uma criança, só pelo facto de existir, dá origem a novas ideias, provoca debates, transformações do coração e, por conseguinte, provoca desprendimento de si e das coisas.

3. Maria e José, pais que se desprendem 

  Não é, pois, na família que fazemos esta aprendizagem do desapego, do desprendimento, quando nos aceitamos uns aos outros com o nosso coração, a nossa personalidade, com as nossas aspirações? Também Jesus faz esta aprendizagem na sua própria carne. Fá-la, quando seu pai e sua mãe são obrigados a refugiar-se no Egipto. Fá-la em Nazaré da Galileia, ao crescer em graça e em sabedoria sob o olhar dos pais e da vizinhança.

  A Galileia não era um paraíso calmo e sereno. Desta província vinham muitos Zelotas, gente revoltada contra o domínio romano e contra a colaboração de Herodes com os pagãos. Também é na Galileia que nascerá um movimento popular de baptistas, os Nazarenos, que se opunham ao movimento dos fariseus cada vez mais excessivo e intransigente. José e Maria deviam estar próximos deste movimento baptista que já chamava à conversão, ao baptismo de purificação, tanto o Judeu como o Samaritano, como o soldado romano pagão. Se Jesus toma a iniciativa de se fazer baptizar por João e se, por sua vez, também Ele baptiza é no intuito de marcar uma diferença com as práticas do Templo, para pôr em evidência a sua resolução de adorar o Pai em Espírito e em Verdade, expondo-se ao risco de perder tudo.

  Voltemos à família de Jesus, ao seu meio cultural e social, pois é este meio que nos fará compreender quem ela era.

  As personagens das parábolas, Jesus conheceu-as. A mulher pobre que procura nos recantos da casa a moeda perdida, que se alegra, quando a encontra, não será ela uma das mulheres pobres com quem a mãe conversava em Nazaré? O pastor que deixa as noventa e nove ovelhas, para ir à procura da única que se tinha perdido, faz-lhe lembrar os pastores que conheceu. O pobre Lázaro, a viúva que insiste e incomoda o juiz iníquo para obter o que lhe é devido pelo seu explorador, são pessoas da sua terra. A pobre viúva que oferece dois tostões como dom ao Templo, Ele conhece-a. É por esta razão que pode afirmar: "Ela deu mais que os outros, porque deu do que lhe era necessário, do que lhe fazia falta para viver."

Durante a infância e a adolescência cruzou-se com todas estas pessoas, porque os seus pais as frequentavam, e viu, com os seus próprios olhos, os jornaleiros que todos os dias esperavam por um trabalho na vinha; com os seus próprios olhos observou o desespero em que se encontravam, quando chegava a décima primeira hora, e sempre sem arranjarem trabalho. Conheceu pais que saíam, ao cair da noite, para pedirem, sem serem vistos, a um amigo pão para os filhos. Conheceu aquele vizinho que acaba por dar, talvez mais para não ser incomodado do que por bondade. Era, pois, esta a vizinhança que rodeava a família de Jesus: pessoas pobres que o educaram progressivamente para a sua missão.

  Nesta Galileia de terras férteis, de abundantes vinhas, a exploração do poviléu pelos grandes proprietários tornava a vida insuportável. É lá que Jesus aprenderá que os grandes exploram os pequenos e que os pequenos, por sua vez, exploram os mais fracos. Lembrar-se-á disso na parábola do servidor que, apesar da generosidade exorbitante do seu senhor para com ele, mandará para a prisão aquele que lhe deve uma pequena quantia.

  Todos estes feitos e gestos foram vividos por Jesus que a eles se associou, que os sofreu na sua própria carne. Através deles, aprendeu a conhecer os homens e o mundo; aprendeu que, se tomasse partido pelo povo que era o seu, pelos mais pobres deste povo de pobres, teria que sacrificar todo o seu ser. Compreendeu, por experiência, que era a única maneira de não se deixar isolar pelos grandes da inteligência e do poder. Aprendeu, pela vida que levou junto dos pais, que, se queria salvar todos os homens, esta era uma condição indispensável para não deixar ao abandono homem algum, por mais pobre que fosse.

  Estar atento aos outros, encher-se de compaixão pelo povo sem pastor, isso aprende-o Jesus de Maria e de José. É uma evidência, mesmo se o Evangelho se mostra discreto sobre a sua vida. A intervenção de Maria em Caná é um exemplo marcante da sensibilidade da mãe de Jesus. Dela e de José, Jesus aprendeu que não se dá uma pedra a quem vos pede um pedaço de pão, nem uma serpente a quem vos pede um peixe, nem um escorpião nas vezes de um ovo.

  O facto de viver numa família pobre, à força de desapego, tornou Jesus sensível aos sofrimentos dos outros, à doença, às enfermidades, à fome e ao desprezo. A sua mãe, que "guardava todas estas coisas no coração," conhecia bem a sua missão. Sabia que devia forjar o coração de Jesus, para que Ele pudesse oferecê-lo ao mundo. Do mesmo modo, todos nós devemos forjar o coração dos nossos filhos, para que sejam amanhã uma boa oportunidade para o mundo. 

  Através dos gestos quotidianos dos seus pais, Jesus aprende e amadurece a sua missão. Ao crescer numa família humilde, fez a experiência do desprendimento, do serviço aos outros, da partilha. Junto dos seus pais, que por amor se desprendem, aprendeu a amar o seu povo na aflição e os mais pobres do seu povo. O serviço de amor estará de tal maneira arreigado n’Ele que sacrificará a sua própria família.

4. O lava-pés, desprendimento por essência

  É Marcos quem no-lo recorda. Diz-nos que, a um dado momento, a sua mãe teve medo, que tentou travá-lo. "Mas quem é minha mãe? Quem são meus irmãos?" Jesus responde: "Aquele que faz a vontade de meu Pai. Quem ama o pai, a mulher mais do que a mim não é digno de mim..."

Tudo arriscar, deixar tudo, como o fizeram Maria e José, ocupar os últimos lugares, para que os outros adquiram a liberdade, para que todo o povo seja salvo, será a sua linha de conduta. Estar ao serviço, Jesus ilustra-o ao lavar os pés dos apóstolos, que são a sua nova família: "Já não vos chamo servidores, mas sim amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que aprendi de meu Pai..."

  Esta família foi por Ele construída passo a passo, interpelando os apóstolos um a um. Uma família criada e agindo à imagem da sua para trazer a salvação ao mundo. Quando chegou a hora de viver com esta família um momento importante, um momento de medo, de aflição, de abandono, onde cada um precisa do outro para se aguentar, para ainda acreditar e amar apesar das dificuldades, Jesus fez o que tinha aprendido da sua mãe e de José: desprendeu-se, despojou-se, agarrou numa bacia com água, numa toalha, ajoelhou-se diante de cada um e pôs-se a lavar-lhes os pés.

  Na hora do lava-pés, Jesus pôs-se ao serviço, como os seus pais o serviram, o educaram para ser o homem que agora é. Desprendeu-se, como os seus pais se desprenderam para lhe construírem um futuro. Pedro não aceita ser servido: "Por que fazes isso? Não quero que me laves os pés. Isso não é possível."

Jesus responde-lhe: "Se Eu não te lavar os pés, nada tens de comum comigo." Porquê? "Pois se não fores purificado, ficarás incapaz de amar."
Através do lava-pés, Jesus relembra, põe em evidência o perdão, como indispensável ao amor. Põe em realce o desprendimento e o que significa esquecer a injustiça, o dano sofrido.

  O lava-pés, mais do que um serviço, é uma reconciliação. Todas as famílias vivem de reconciliação, de pequenas atenções de uns para com os outros. Por esse meio, nós aprendemos a dar asas ao nosso coração e mostramos ao outro que ele faz parte da nossa vida, que tem a nossa estima.

  É impossível ir para a frente em amor sem este perdão, sem esta reconciliação, esta purificação. Cada Eucaristia renova o lava-pés. Renova-o no pedido que fazemos a Deus de nos perdoar os pecados. Renova-o também na partilha do perdão uns para com os outros.

  O lava-pés é o anúncio, ao vivo, do amor que, em Cristo, encontra uma imagem perfeita. Do amor que vai até ao fim, até ao dom da vida. Quando Jesus diz a Pedro: "Se Eu não te lavar os pés, nada tens a ver comigo," queria dizer-lhe: "Se tu não consegues aceitar a minha amizade, como poderás tu aceitar que Eu morra por ti, que tu sejas salvo pela minha morte?"

  Este gesto de amor que reconcilia e purifica, que, de uma só vez, enaltece e coloca ao mesmo nível uns e outros, era necessário, para que os apóstolos pudessem, mais tarde, compreender que tudo atingia a plenitude no amor. Este gesto de amor era necessário, para que os apóstolos soubessem doravante que deveriam desprender-se para serem capazes de encontrar o outro na pobreza, na humildade e na verdade, a fim de o salvarem. No lava-pés Jesus dá uma lição concreta, à maneira de uma atitude a transmitir: "Chamais-me Mestre e Senhor, e tendes razão, porque o sou. Se vos lavei os pés, Eu que sou Senhor e Mestre, também vós deveis lavar os pés uns aos outros."

  A Igreja tem a obrigação de viver constantemente este estado de pobreza, de humildade e de liberdade, pois é portadora da mensagem viva de Jesus. Também a família, cadinho onde se molda esta mensagem, é chamada a viver esta mesma exigência.

5. A família, escola do amor que torna livre

  Com efeito, a família, primeira comunidade predestinada, onde se realiza a aprendizagem do amor, é o espaço onde encontra expressão a vontade de amar, a vontade de construir pessoas, homens e mulheres capazes de, por sua vez, amarem.

  Muitas vezes, pensamos que o serviço aos irmãos nos conduz fora das fronteiras, para além das nossas próprias famílias. E até pensamos que o nosso empenho só é real quando se realiza à porta dos Gentios. Ora Cristo, ao longo da sua vida, mostra-nos outra coisa.

  Cristo lembra-nos que, em primeiro lugar, nos devemos comprometer com os que nos rodeiam: a nossa própria comunidade, a nossa paróquia, o nosso concelho. Lembra-nos que só somos cristãos na medida em que O procuramos, de preferência, na pessoa dos mais pobres da nossa paróquia, da nossa vizinhança, da nossa própria família. É fortalecidas por esta experiência quotidiana do amor, de reconciliação, de serviço, que a família e a Igreja serão mensagem de salvação para o mundo.

  O verdadeiro desprendimento consiste, antes de mais, em amar aqueles que estão mais perto de nós. Só o amor ao próximo nos pode impedir de sermos individualistas, idealistas, egoístas, orgulhosos e de nos enganarmos sobre nós mesmos. Só este amor nos pode impedir de nos tomarmos por aquilo que não somos.

  Fiquei sempre marcado pelo facto de que o lava-pés nos conduz ao interior de nós mesmos, das nossas famílias, das nossas paróquias e comunidades locais. Através dele, tenho compreendido que lançar-se para o exterior, esquecendo quem nos está próximo, é um passo em falso. Para nós, cristãos, a Igreja é e deve ser a primeira das comunidades a respeitar, a primeira das comunidades a amar.

  Muitas vezes, criticamos a Igreja por estar demasiado virada para ela própria, por não ser suficientemente social ou política, suficientemente solidária. Mas então que estamos nós a pedir à Igreja de Jesus Cristo? Aquilo que Cristo espera da sua Igreja não irá infinitamente mais longe?

  A questão que deveríamos pôr a nós próprios e à Igreja não será a de saber como ir ao encontro dos mais pobres para os amar? Como ir ao encontro de Jesus Cristo na pessoa dos mais pobres do nosso tempo para podermos dizer que amamos o Salvador?

  Se puséssemos as boas questões à Igreja, isso permitir-lhe-ia transformar o social, o político e o solidário em amor aos pobres. É esta a verdadeira tarefa, a diligência específica da Igreja. O nosso questionário deve fazer com que ela se inquiete, se torne impaciente, apaixonada pelos pobres. De outro modo as nossas questões não são um serviço que lhe prestamos.

  A Igreja transformará tudo em amor, se estiver empenhada no amor aos pobres. As próprias famílias pobres nos indicam o caminho a seguir. Assim, aquela mulher pobre e analfabeta de Londres que dizia a uma voluntária [2] com quem tinha passado o dia a dar voltas pela filha: "Antes de ires ver a minha filha, vai primeiro ver os teus amigos."
Não lhe disse os teus companheiros, nem os teus colaboradores, nem os teus colegas, mas sim os teus amigos.

  Nem sempre nos damos conta do que os mais pobres esperam de nós. Esperam que sejamos portadores de esperança, portadores de amor. As famílias do bairro de lata de Noisy-le-Grand faziam-nos, frequentemente, esta pergunta: "Fazeis isto porquê?"
"Porque vos amamos," respondíamos nós.

  Ser portador de esperança é saber amar. Amar primeiramente aqueles com quem agimos, com quem vivemos. Sem este amor, à partida, o nosso empenho junto dos outros não tem significado, não tem sentido. É uma fuga.

  É a nós, cristãos, que compete desmistificar o mundo do social, da política e da solidariedade para lhes conferir uma real dimensão de amor. É, sem dúvida, indispensável acompanhar os pobres. É, sem dúvida, necessário denunciar as injustiças no campo social e político. Porém, enquanto cristãos, não podemos contentar-nos com a denúncia pela acusação. Não. Nós devemos denunciar as injustiças tentando compreender, acolhendo, mudando a nossa própria maneira de ser, de fazer, de dizer, para que os outros aceitem fazer outro tanto.

  Sim. A família é e será o melhor terreno para fazer esta aprendizagem. Com efeito, a família obriga cada um a pôr-se continuamente em questão; leva-nos a viver plenamente os gestos simples da vida quotidiana; força-nos a abrirmo-nos constantemente, para que o outro possa fazer crescer o que traz nele de essencial.

  Acolher o outro, leva-nos a arranjar lugar no nosso coração, no nosso tempo, na nossa vida. Os nossos irmãos e irmãs, o nosso marido, a nossa mulher, os nossos filhos, os nossos amigos, todos os que fazem parte da família nos conduzem a isso. A família é, pois, uma escola única e insubstituível!

  Família e Igreja devem estar possuídas por esta vontade de construir comunidades, lares onde o amor jorre. Onde uns e outros se amem a tal ponto que não cessem de querer a felicidade do outro, de querer plenamente que o outro se sinta realizado. Isto só o faremos na medida em que tivermos um olhar de pobre sobre o mundo, na medida em que tivermos gestos de pobre, gestos que evoquem a vida, gestos simples que sejam um apelo ao desprendimento. Gestos que sejam um apelo ao abandono do ódio, da crítica, dos preconceitos, coisas que impedem todo e qualquer encontro. Gestos simples que tornem o outro livre de encontrar o seu caminho e de, por sua vez, amar. Ser o cadinho que vai tornar o outro capaz de tomar balanço para se atirar, fazendo-o livremente e sem que lhe seja indicada previamente a terra prometida para a qual deve caminhar.
 Eis a fina flor do desprendimento. Desprendimento este que lança o outro para a frente, que exige de nós aquele olhar de ternura capaz de fazer com que ele se sinta amado, respeitado, atirado para a frente. Que exige aquele olhar de amor capaz de permitir ao outro de, por sua vez, se empenhar. Quando o empenho do outro se torna o meu, então o nosso empenho comum torna-se uma graça. É esta a atitude da família cristã e também a de todos os homens e mulheres de boa vontade que se dedicam inteiramente à construção de um mundo mais humano. De um mundo onde cada homem se torne capaz de criar amor, de viver o amor, de construir um mundo de amor.

 Como vedes, trata-se de uma preocupação que nos ultrapassa infinitamente, que abrange toda a humanidade. Trata-se de uma coexistência no sentido mais profundo do termo, de uma coexistência com o outro, com os outros. De uma coexistência que torna o outro continuamente presente a nós mesmos e que nos leva a querer que ele consiga, por sua vez, criar amor, partilhá-lo.

  Pois um grande amor nunca se guarda só para si.


II. A FAMÍLIA, CAMINHO DE EVANGELIZAÇÃO

  As famílias mais pobres, mensageiras de Jesus Cristo

  O Natal, em casa dos Beauchamp, foi um dia como os outros, talvez pior que os outros. Não havia absolutamente nada que assinalasse a festa, nem mesmo uma refeição que fizesse esquecer, ao menos por umas horas, a miséria do dia-a-dia, que permitisse a cada um matar verdadeiramente a fome. Mas, para nós aqui reunidos, talvez o Natal falhado dos Beauchamp nos possa ajudar a compreender o verdadeiro significado do nascimento de Jesus Cristo, deste Jesus que veio ao mundo no meio dos pobres para viver e morrer, a fim de que todos os homens pudessem viver.

  Passada que era, de alguns dias, esta noite de Natal, fiz a pergunta ao senhor Beauchamp. Ele baixou a cabeça e não deu resposta. Reflectiu e disse-me baixinho: "Não tínhamos nada, era demasiado custoso a suportar..." Instantes depois concluiu: "Talvez seja isto o Natal; talvez tenha sido assim o Natal de Jesus."

Ele, que nunca falava de Deus, que nunca manifestava o mínimo interesse de carácter religioso, acabou ainda por me dizer: "É verdade que precisamos de ser salvos... nós que somos uns Zé Ninguém."
Tal revelação é-nos feita por um homem franzino, mal vestido, apagado e que tem muita dificuldade em se exprimir. Esta revelação, todos os mais pobres no-la fazem, se soubermos escutá-los, olhá-los com amor.

  Cansado de caminhar, Jesus sentou-Se, junto ao poço de Jacob... E respondeu à Samaritana que lhe oferecia água: "Se tu conhecesses o dom de Deus e aquele que te diz: dá-me de beber, tu própria lhe terias pedido e Ele ter-te-ia dado água viva."
 Ao meditarmos neste encontro e nas palavras de Jesus, descobrimos que nos é exigida uma mudança fundamental nas nossas relações com os mais pobres. Aquele que se encontrava na necessidade é, na verdade, aquele que pode dar tudo. Nós, que pensávamos ter para dar, acabamos por descobrir que temos necessidade de receber. A nossa própria necessidade de ser salvos torna-se fonte de partilha de fé em Jesus Cristo.

  Evangelizar os mais pobres, missão que Cristo confiou à sua Igreja, torna-se missão de se deixar evangelizar por eles. Pois, se a nossa vida fosse ao encontro dos mais pobres, estes transmitir-nos-iam o Dom de Deus.

  Toda e qualquer família, por mais esmagada que esteja pela miséria, é, na verdade, portadora de uma mensagem única, a mensagem de Jesus despojado que, ao nascer na extrema pobreza, assumiu toda a miséria humana, menos a do pecado. A Igreja recorda-nos isto sem cessar: toda a família pobre tem o direito de saber que é mensageira de Jesus Cristo.

  A vossa própria presença aqui mostra que perguntais a vós mesmos: "Como viver em família a mensagem de libertação de Cristo?"
Eu gostaria de dar mais dimensão à vossa pergunta, acrescentando: "Como vamos conseguir ser os investigadores, os reveladores da mensagem de que são portadoras as famílias mais necessitadas?"

6. A família de Jesus, missionária

  D. Houssiau, o ano passado, aqui em Erpent, lembrava-nos que "a família não é só uma imagem, mas também o lugar donde pode nascer a Igreja." É em família que a criança aprende a crer, a esperar, a desenvolver o amor no seu coração. D. Houssiau relembrava que Deus deposita confiança em cada uma das nossas famílias, que Ele sabe que toda a vida, por mais desfeita que esteja, se pode tornar bela, apesar das fraquezas e sofrimentos. A Igreja, desde sempre, dá testemunho disso. Ela apresenta a família de Cristo como modelo da família cristã e, por conseguinte, da família missionária, na certeza de que todas as famílias são chamadas à mesma missão.

  Diz um provérbio alemão: "A maçã não cai longe do tronco," para explicar a parecença dos filhos com os pais, para mostrar que seguem as pegadas dos pais, que existe uma continuidade entre as gerações. Assim se passou com Jesus, que quis ser um dos nossos em todos os aspectos da vida humana.

  Mas, como já o sublinhámos, a família não se reduz só a um homem, mulher e filhos. A família faz parte de um meio, de uma sociedade com os quais mantém laços constantes: laços de ideias, de sentimentos, de projectos.

  Assim, quando falamos de Jesus, fazemos implicitamente referência à sua família, ao seu meio, ao seu povo. A família de Cristo consolidou-se na união, porque tinha consciência de ser portadora de uma mensagem que Deus lhe tinha confiado e que se destinava à sua vizinhança, ao seu povo, a todos os homens.

  Maria foi a primeira a receber tal mensagem no momento da Anunciação. Com efeito, o anjo diz-lhe: "O teu filho será grande, será chamado Filho do Altíssimo, o Senhor Deus dar-lhe-á o trono de David, seu Pai. Ele reinará eternamente sobre a casa de Jacob. De igual modo, o menino que darás à luz será chamado Filho de Deus."

 Se José recebe Maria como esposa, é porque também sabe, por garantia divina, que este menino, que não é o seu, será o Salvador do seu povo. Assim, a família de Jesus encontra-se, por vocação, integrada num povo, na história do povo de Deus.

  Deste modo, à maneira da família de Jesus, toda a família é portadora de uma mensagem de amor a transmitir ao mundo. Toda a criança, rica ou pobre, traz nela uma mensagem prometedora. Toda a família, toda a criança tem um significado inestimável para o seu meio e para a humanidade inteira. A nossa sociedade, que se organiza para que as mulheres pobres não tenham filhos, nem sempre o compreende.

  O amor cresce partilhando-se; é dando-se que a família se constrói. É tomando a peito os problemas do seu tempo que Maria vai consolidar a sua fé em que este menino é verdadeiramente o Salvador. A Isabel, sua prima, nem tão-pouco falará do menino que espera, mas sim da Salvação que, através dela, já está presente no meio do povo: "O Poderoso fez em mim maravilhas... dispersou os corações cheios de pensamentos de orgulho... destronou os poderosos e elevou os humildes. Encheu de bens os famintos e despediu os ricos de mãos vazias."

  Dar a conhecer a mensagem será doravante a missão de Maria e de José. Deus abrirá os olhos aos pastores. Eles reconhecerão, nesta criança da pobreza, envolvida em paninhos, que a paz doravante está ao alcance de todos os homens que a desejam e que, por isso mesmo, até o céu rejubila de felicidade.
 Depois será necessário dar a conhecer a mensagem aos Magos do Oriente... Maria e José dar-lhes-ão o sentido de tal mensagem. Este Menino é dom de Deus. Toda a criança é um testemunho do amor humano. Mas o amor está sempre em perigo, sobretudo quando se fecha sobre si mesmo. O Menino na manjedoira é dom, é amor de Deus dado. É como portadores de uma mensagem que Maria e José vão até ao Templo para oferecerem o Menino a Deus. Simeão, homem de idade piedoso, e Ana, a profetiza, encontram-se frente a um Menino pobre, cujos pais só podem oferecer duas rolas. Também a eles Deus abre os olhos e lhes comunica o seu próprio olhar. Simeão e Ana são pessoas de fé, de esperança, pois demonstram uma total confiança em Deus. Como pessoas que se encontram à espera de um mundo novo, não precisam das palavras de Maria e de José para compreenderem. Basta-lhes ver para acreditarem.

  Relembrando Maria, não posso deixar de pensar na Carole, jovem de Haiti, que, sem dizer nada, me puxava pela mão para entrar em sua casa, uma pequena barraca situada num bairro de lata de Port-au-Prince. Aí habitava com a mãe, irmãos e irmãs. Queria mostrar-me o seu menino recém-nascido. O bebé ali estava, em cima da cama, vestido como um rei, enquanto a mãe trazia um vestido todo roto. Então, perguntei a mim mesmo como é que ela tinha conseguido vesti-lo assim. O rosto dela era só sorrisos, ternura, esperança. Certamente como o rosto de Maria no Templo, pobre, mas feliz por ver o seu filho reconhecido.

  O segredo da fé de Simeão e de Ana reside no facto de que Maria e José só tinham um menino pobre para apresentar, mas que valia todo o ouro, toda a sabedoria e todo o poder do mundo. Porém, Simeão e Ana não ignoravam quanto o mundo pode ser mau para com as crianças, sobretudo quando são reconhecidas como mensageiros da Salvação. Assim, Simeão tem o pressentimento de que este Menino vai encontrar grandes dificuldades para realizar a missão que Deus lhe confiou. Tem o pressentimento de que a sua pobreza será um escândalo para os que esperavam um Messias poderoso e glorioso. Simeão tem o pressentimento de que este Menino será espezinhado e que Maria, sua mãe, terá o coração trespassado pela dor.

   Os Evangelhos falam pouco dos anos ocultos da vida de Jesus. Será que a família ficou inactiva? De maneira nenhuma! Em Nazaré, Maria e José preparam Jesus para a sua missão. Eles próprios participam na vida do povo. José, o carpinteiro, é conhecido na região, sem dúvida por causa do seu ofício, mas também porque, como diz o Evangelho, era justo e, por conseguinte, um crente empenhado.

  "A maçã não cai longe do tronco," dizíamos nós, ou ainda "a boa árvore dá bons frutos, reconhece-se pelos frutos." Sendo assim, a vida adulta de Jesus permite-nos descobrir a vida dos seus pais. Compreendemos então melhor o que os Evangelhos já nos tinham revelado através de pequenos toques discretos, pequenos anúncios. Mateus diz-nos que José, quando teve conhecimento da gravidez de Maria, não quis difamá-la publicamente, que decidiu repudiá-la secretamente. Tal não era o costume na sociedade judaica frente a uma tão grande decepção. Isto mostra-nos que José tinha ideias claras sobre a justiça, que para ele esta se encontrava para além da obediência à Lei. Seu filho adoptivo guardará a lição e afirmará mais tarde: "Não vim para abolir a Lei, mas para a aperfeiçoar."

  Além disso, José, instruído pela palavra de Deus, tinha uma opinião sobre a sua condição de pobre, sobre a situação do povo da Galileia, povo oprimido pelos Romanos e também pelos poderosos do povo judeu. Tinha opinião formada sobre o comportamento dos fariseus e dos que exerciam o poder. Jesus adopta as ideias de José. Se, mais tarde, se levanta contra os poderosos, será porque viveu com Maria e José a experiência dos abusos e atropelos que transtornavam o dia-a-dia do povo. Foi com eles e com a vizinhança que Jesus aprendeu tudo o que sabia sobre a discordância entre o comportamento das elites e os ensinamentos das Escrituras.

  Podemos pensar, com toda a certeza, que os temas, os acontecimentos capitais da época alimentavam a oração de Maria e de José. Os Romanos, os Fariseus, Herodes, os Zelotas, o empobrecimento sistemático do povo, os usureiros que chupavam o sangue dos camponeses sem posses para pagarem os encargos, a falta de protecção às mulheres, às viúvas, aos órfãos, o orgulho e o rigor do pessoal do Templo perante os lares sem posses para pagarem o dízimo e incapazes de respeitarem à letra os ritos... Maria e José sentiam-se intimamente ligados a todas estas questões. Já sabendo que Jesus era o Salvador, traziam com eles a esperança, anunciavam e exerciam a justiça, a fraternidade, a verdade.

  Jesus Cristo irá mais longe do que o seu pai adoptivo. Mas, à medida que o filho cresce, José adquire uma grande densidade de homem e de pai. Certamente, também ele deve ter crescido em sabedoria e em justiça.

7. A família que aspira a que o filho vá mais longe

  Família missionária, Maria e José cedo descobrirão que o filho está todo voltado para a sua missão.

"Não sabíeis que me devo ocupar das coisas de meu Pai?," dir-lhes-á aos doze anos, quando se inquietavam com o seu desaparecimento. Jesus está agarrado aos pais, mas a anunciação, a encarnação, a apresentação, só terão sentido, para eles, se o ajudarem a ir até ao fim, para além da família, da vizinhança, da pequena aldeia de Nazaré. Se é o Messias, será no Templo que tudo será posto em jogo. Será na casa de Deus que Deus o manifestará.

 Mas então quem é minha mãe e meus irmãos? Os que se inclinam perante a vontade de Deus, não só em palavras ou com bons sentimentos, mas sobretudo empenhando-se, para que o Reino venha.

  Transmitir a mensagem, apoiar doravante o Filho na sua missão, ir com Ele até ao coração da miséria, no meio dos pobres, dos aleijados, dos miseráveis, das pessoas de má vida, tal será, pois, o compromisso de Maria, a partir da saída de Jesus de Nazaré.

  O Evangelho diz-nos que ela estava a seu lado, que fazia parte do grupo de mulheres que o acompanhavam. Sem dúvida alguma, tudo indicava que Jesus iria ao encontro dos do seu mundo. Que escolheria os apóstolos entre os sem-diploma, os sem-qualificação. Eles serão os primeiros escolhidos de uma linhagem inumerável de padres, de consagrados, de leigos empenhados a quem os pais terão dito muitas vezes com pena: "O nosso filho, a nossa filha, são tão inteligentes, tão honestos, têm tantas possibilidades. Têm um belo futuro à frente deles. Privámo-nos tanto, para que tivessem uma boa situação. E eis que vão estragar tudo..."

  Certo dia, dizia-me uma mãe: "A minha filha, voluntária no meio desta canalha? Senhor prior, nem pense nisso! Ela volta comigo ou então vou queixar-me à justiça."
Quantas e quantas vezes certos pais me acusaram de ter desviado os filhos de um caminho honorífico, de os ter conduzido ao coração da miséria, junto das famílias sem trabalho, sem eira nem beira, junto de crianças esfomeadas e analfabetas. "Ela é tão bonita," dizia-me uma mãe, a propósito da filha que era voluntária do Movimento ATD. "Ela é doida e vai estragar a vida toda."

  É fácil imaginar que a família de Jesus se sentia comprometida com a escolha por Ele feita de se confundir com a canalha. José e Maria não teriam dito, por vezes: "Ele perdeu a cabeça...que desperdício"?
No entanto, Maria segue Jesus, como no-lo dizem os Evangelhos. Sempre com a vontade de o ajudar a transmitir a mensagem ao mundo. A primeira ocasião que se lhe apresenta é uma boda. Jesus foi convidado juntamente com a mãe e os primeiros companheiros, para uma festa, e eis que acontece uma grande desgraça. Uma festa de pobres que, como acontece muitas vezes ainda hoje, termina num vexame. Os noivos já não têm mais vinho para oferecer. Não têm meios para comprar mais, e isto numa região onde as vinhas não faltam. Como tirar de apuros aqueles amigos que os tinham convidado?

  Guiada por Deus, Maria pensa no Filho. Tudo lhe vem à memória. A anunciação, José, Belém, Herodes, Ana, Simeão e os doutores admirados por uma criança da pobreza conhecer tão bem as coisas de Deus. Recorda-se de tudo e compromete-se com Ele: "Fazei tudo o que Ele vos disser. Tende confiança," dirá ela à família.

Jesus confirma: "Respondo ao teu pedido, porque Deus, meu Pai, a isso me convida, pois quer manifestar agora o seu Filho." 

  Doravante, o caminho de Maria está traçado. Mesmo se o evangelista, antes da intervenção de Caná, só nos fala das inquietações da família, nós sabemos que Maria se fez pequenina, se arriscou, para que Jesus fosse reconhecido grande.

E certamente assim continuou durante toda a vida pública de Jesus. Será, junto à cruz, que ela confirmará, pela sua presença, que o Anjo não a tinha enganado. De pé, junto à cruz, Maria dá testemunho disso. Confirma que as palavras do Anjo eram verídicas: "Ele será grande, o Senhor Deus dar-lhe-á o trono de David, seu Pai. Reinará sobre a casa de David pelos séculos fora e o seu reino não terá fim."

Maria confirma, ao mesmo tempo, a realização da profecia de Isaías: "Ele será objecto de desprezo, abandonado pelos homens, homem de dor, destruído."

8. A família de Jesus, garantia da salvação

  Maria missionária é Maria despojada, de mãos vazias. É Maria aceitando o escândalo já pressentido pelo seu coração nos momentos difíceis de Belém. Uma nova maternidade se cria doravante nela: mãe dos apóstolos, mãe dos homens. Ela é a primeira testemunha incontestável da morte e ressurreição do filho.

  Assim, esta família (Maria, José e Jesus), como aliás, a partir de agora, toda a família sem excepção, é portadora de futuro, testemunha de que Deus não abandona o seu povo. Isabel, os pastores, os magos ficaram convencidos disso. Simeão, Ana, os discípulos e o centurião proclamaram a sua fé, junto à Cruz. O escândalo rebenta por toda a parte! E o escândalo, para aqueles que vêem com os olhos de Deus, porque têm fé, é o próprio Deus.

  A vocação de José e de Maria foi mostrar que Jesus, na sua pobreza e no desprendimento em que viveu desde o presépio até à cruz, contra toda a expectativa, era o Salvador. Contra toda a expectativa, a pobreza, o amor e a esperança conjugaram-se.
É por isso que podemos rezar a Maria como "Nossa Senhora dos-que-nada-têm, dos-que-nada-são, Nossa Senhora de-toda-a-gente, rogai por nós." 

9. Deixar tudo para evangelizar os mais pobres

  Ora, toda a família irradia e é chamada a transmitir a mensagem para além do tempo que vive na terra. Maria, que Jesus confiou a João, tornou-se a mãe da Igreja que, ao longo dos séculos, será a Igreja dos pobres, como o diz o Vaticano II. A Igreja reencontra-se em Maria e procura parecer-se com ela. Assim o relembra a Lumen Gentium.

  Porém, parecer-se com Maria significa despojar-se, reviver todos os dias o Magnificat, glorificar a Deus, pôr no seu lugar os orgulhosos, restabelecer a justiça para com os mais pobres, pois estes são Jesus presente a nós. Nós devemos, através da Igreja, fazer das famílias mais necessitadas os nossos parceiros privilegiados, como Maria o fez pelo seu Filho.

A primeira missão de toda a família cristã, aliás, de toda e qualquer família, é a de estar atenta a que os mais pobres tenham os meios necessários para assumirem a sua missão de amor.

  Uma mãe que lutou longos anos contra a miséria, para que a família permanecesse unida, diz-nos no início do relato da sua vida: "Espero que todos os que viveram o que eu vivi leiam este livro e que compreendam que nem só eles têm sofrido. Nós somos seres humanos. Precisamos de pessoas que tenham a coragem de acreditar em nós e de nos dar a possibilidade de assumirmos as nossas responsabilidades junto dos nossos filhos."

  Se acreditarmos nos mais pobres, descobriremos como a fé, a esperança e a caridade estão inscritas na sua vida; como aspiram a uma vida espiritual. É que também eles são habitados pelo Espírito Santo. Mas encontram-se privados dos meios necessários para o provarem a nós e a eles próprios.

  É por isso que a sua fé, esperança e caridade são uma maravilha. A Igreja deve, pois, querer e apressar-se, com ardor, para os evangelizar!

  Recordo aquele homem espezinhado a quem tinham tirado os filhos, porque não se teria ocupado deles convenientemente. Fazia parte de um grupo de famílias militantes do Quarto Mundo. Graças a este grupo reencontrou a dignidade. Sentia-se responsável por outras famílias da miséria. Deste modo, todas as manhãs, ao ir para o trabalho, fazia um pequeno desvio para ir acordar umas crianças, para que chegassem a horas à escola. Como é possível não correr ao encontro deste homem para lhe revelar que está com Jesus Cristo?

  A evangelização dos mais pobres é um dever de família missionária. Pois os mais pobres têm o direito de amar e de ajudar os ainda mais pobres do que eles. Este é o nosso dever e, ao mesmo tempo, a nossa sorte.
 Em contrapartida, é necessário que nos deixemos evangelizar pelos mais pobres; é necessário aprendermos com eles que a fé, a esperança e a caridade exigem de nós mais do que uma experiência passageira. Evangelizar é comprometer-se com eles seriamente e a longo prazo.

  A extrema pobreza é revoltante. Como acreditar em Deus, quando ninguém acredita em vós? Como viver a história de Deus, quando a nossa própria existência se encontra esfarrapada, desfeita em migalhas, porque se é obrigado a recomeçar tudo, dia após dia, para se poder sobreviver? Como imaginar Deus, quando o nosso horizonte se limita ao pardieiro, à rua, ao merceeiro, à tasca? Quando é impossível fazer o mais elementar dos projectos, seja ele familiar, social ou religioso, como é que se pode ser capaz de interpretar os acontecimentos e os gestos da própria vida à luz dos desígnios de Deus?

  Uma Igreja que reconheça a opção preferencial pelos mais pobres como sua vocação primeira, não pode de modo algum estar ausente dos bairros de miséria. Deve levar a fé, a esperança e a caridade até aos bairros abandonados, até aos acampamentos de habitação provisória, até às favelas, até às zonas de habitação clandestina, até aos sítios onde o corpo de Cristo mais sofre, hoje. As famílias mais pobres encontram-se à espera de outros Maria e José, mensageiros da Boa Nova. Encontram-se à espera de famílias que aceitem deixar tudo para mergulharem em pleno coração das zonas de miséria, mesmo que o preço a pagar seja uma vida de despojamento contínuo.

  "Que queres de mim?", perguntava a senhora Garcia a uma voluntária do Movimento ATD Quarto Mundo. Esta senhora vivia miseravelmente com a família num bairro pobre de Marselha. "Que queres? És uma rapariga bonita, tens um pai, mãe, casa, uma cadeira para te sentares. Agora, diz-me o que desejas de mim?"
A voluntária ali ficou sem resposta, em silêncio, perturbada. Então a senhora Garcia, antes de se ir embora, apertou-a nos braços e beijou-a.

  O compromisso da Igreja e o empenho de famílias cristãs ao lado dos mais pobres deve ser deste tipo, um empenho que se inscreva na ternura e também na duração, no longo prazo. De outro modo, como poderá a senhora Garcia acreditar na Igreja, quando diz em nome de Cristo: "Escolhi-vos e amei-vos em primeiro lugar. Amai-vos em meu nome"?

  Quando repete as palavras de Jesus, a Igreja só age de acordo com elas se Cristo estiver presente nas famílias, se for realmente um membro da família. Ele não pode ser um convidado com quem se conversa vagamente, de vez em quando. É um amigo que reencontramos na oração à volta da mesa, que reencontramos de manhã, entre adultos, na liturgia das horas e à noite na oração familiar. É um amigo que consultamos antes de tomarmos uma grande decisão, sobretudo quando se trata de uma decisão que pode vir a ter repercussões na vida dos mais pobres. Assim deve ser feito na escola, quando se é professor, na oficina, na política, nas associações e nos sindicatos. Também assim deve ser feito na Igreja. Claro.

10. A família, garantia da herança

  Se alguns são chamados a deixar tudo, outros são necessários para os apoiarem no seu compromisso. Empenhar-se, comprometer-se nunca é uma questão pessoal, puramente individual. A Igreja toda inteira deve pôr-se à procura dos mais pobres, da ovelha perdida. A sua responsabilidade e, por conseguinte, a nossa, é a de apoiarmos quem enviamos para terras de miséria. A caridade junto dos irmãos que sofrem educa-se em conjunto. Ou então é um fogacho que anuncia decepções e desaires. Na verdade, o abandono daqueles a quem nos juntámos é pior que ter ficado ausente. Um compromisso falhado não faz crescer o outro. Antes pelo contrário, aumenta a sua miséria.

  Ora, esta educação encontra na vossa família o seu terreno de experimentação. É lá que se põe verdadeiramente em jogo a herança a transmitir a vossos filhos e, através deles, ao mundo, aos mais pobres, aos que serão a Igreja de amanhã. Que herança ides vós transmitir a vossos filhos e ao mundo?

  Gostaria de partilhar convosco a minha convicção profunda de que vós, famílias aqui presentes, sois a réplica da família de Jesus. Desta família que levou o tempo necessário, com paciência, dia após dia, para educar o filho no amor dos mais humildes. Vós sois, a partir de hoje, o terreno de experimentação do amor aos mais pequenos. Vós mesmos sois o lugar privilegiado onde esta herança se confirma.
 O primeiro passo a dar será o de se virar para o "mais próximo." Quem na família se encontra mais só? Quais são as crianças com quem os outros não querem brincar? Quais as famílias da paróquia que não frequentam a Igreja, porque pensam que é a Igreja dos ricos?

 Que sorte para a Igreja ter-vos encontrado, a vós milhares de famílias cristãs em marcha. A vós milhares de famílias à procura de ser missionárias. Que sorte para as famílias mais pobres, se decidirdes construir com elas uma sociedade onde reine a justiça e a fraternidade.
 E onde Jesus possa viver no meio de nós.


O Padre Joseph Wresinski

Nasceu de um pai polaco e de uma mãe espanhola a 12 de Fevereiro de 1917.
Ainda menino, conheceu a miséria junto de sua mãe e irmãos, vivendo então a família numa casa sem condições, em Angers, França.

Foi ordenado padre a 29 de Junho de 1946 em Soissons. Tendo sido prior de paróquias operárias e rurais durante dez anos, no Departamento do Aisne, é-lhe proposto em 1956, pelo seu bispo, ir ao encontro do acampamento dos "Sem-Abrigo", em Noisy-le-Grand, na região de Paris.

Aí, juntamente com famílias que se encontravam numa desolação total, funda o Movimento ATD Quarto Mundo. Aí, homens e mulheres, dos mais diversos meios culturais e religiosos, vêm juntar-se a ele, decidindo empenhar as suas vidas na destruição da miséria, em todos os recantos da terra. Assim apareceu o Voluntariado.

Ao mesmo tempo, cria uma rede de "aliados", que se comprometem a lutar para que a miséria deixe de ser considerada obra do destino; o terreno de acção dos "aliados" é o seu local de trabalho, as suas associações, as suas paróquias.

Em 1993 o Movimento ATD Quarto Mundo encontra-se implantado em 116 países, através do Fórum Permanente da Grande Pobreza.

O Voluntariado, composto por 350 voluntários permanentes, encontra-se implantado em 25 países espalhados pelos cinco continentes.

Sendo membro do Conselho Económico e Social da República Francesa, desde 1979, o Padre Joseph Wresinski redige o Relatório "Grande Pobreza e Precariedade Económica e Social", em Fevereiro de 1987. Tal Relatório veio a ter repercussões sociais e políticas importantes na Europa e no mundo.

No dia 17 de Outubro, desse mesmo ano, inaugura uma Laje, no Adro das Liberdades e dos Direitos do Homem, no Trocadéro, em Paris, na qual está gravada a seguinte mensagem:

"Onde os homens estão condenados a viver na miséria,
aí os Direitos Humanos são violados.
Unir-se para os fazer respeitar é um dever sagrado."

Uma réplica desta Laje foi inaugurada junto ao Arco da Rua Augusta, em Lisboa, a 17 de Outubro de 1994.

O Padre Joseph Wresinski deixou-nos a 14 de Fevereiro de 1988. Repousa sob a capela que mandou construir no Centro Internacional do Movimento ATD Quarto Mundo, em Méry-sur-Oise, França.

Em Dezembro de 1992, a Assembleia Geral das Nações Unidas decreta o dia 17 de Outubro como Jornada Mundial para a Erradicação da Pobreza.

[1] o Sahel é uma região africana entre as mais pobres do mundo devido ao avanço do deserto.

[2] Voluntário tem aqui um sentido muito próprio e característico do Movimento ATD Quarto Mundo. É voluntário quem se compromete inteiramente com os mais pobres, ou seja, quem consagra todo o seu tempo, toda a sua vida, todo o seu saber ao serviço do povo da miséria para, em conjunto, a destruir. O voluntário encontra-se, pois, totalmente disponível para o serviço aos mais pobres.

Viver o Evangelho em família
Sítio realizado com SPIP