Encontros com o Padre Joseph Wresinski
Entrevista de Claudine Faure, em Outubro
de 1987
Tradução de Carlos Rodrigues
Claudine:
Padre Joseph, pode explicar-me o que é a miséria?
Padre Joseph:
A miséria? É quando uma pessoa ou uma família vive com grandes dificuldades
e se vê obrigada a pedir socorro à assistência, porque não é reconhecida como
alguém com direitos.
Creio que a miséria é isto: encontrar-se sem direitos.
Se há famílias ou pessoas condenadas a viver, como se não tivessem direitos,
é porque as consideramos seres inferiores, incapazes de assumir responsabilidades.
São elas mesmas que o dizem: “Consideram-nos como se nada fôssemos, como
se não fôssemos gente.”
Claudine:
O que pensa disso?
Padre Joseph:
Penso que é uma profunda injustiça, porque todas as pessoas e todas as famílias
que conheço por esse mundo fora, sobretudo em França, têm a vontade firme de
se libertar desta situação. No fundo, ninguém aceita ter frio no inverno, passar
fome, encontrar-se sem trabalho. Ninguém gosta de se sentir desprezado, mal
visto seja por quem for. No fundo, todos os pobres fazem esforços para levantar
a cabeça. Porém, acontece que, à força de os pormos de lado, de os considerarmos
inúteis, acabamos por não ser capazes de reparar nos esforços que fazem. Vi
famílias que, para receberem a visita de uma assistente social, tinham limpo
a casa de ponta a ponta. Mas a casa era tão miserável, era tudo tão pobre que
a assistente social, mal entrou, começou por dizer: “Mas como é que vocês
conseguem viver num chiqueiro destes?”
A miséria é isto mesmo: ninguém repara nos esforços que fazeis, ninguém olha
para vós, com olhos de ver.
Claudine:
O que é que o levou a ir ao encontro destas famílias?
Padre Joseph:
Começo por dizer que passei toda a minha infância na miséria. Mais tarde, aprendi
o ofício de pasteleiro e então, foi-me dada a oportunidade de entrar num movimento
de jovens que se chamava J.O.C. (Juventude Operária Católica).Assim,
pude contactar com outros jovens que, como eu, vinham de meios onde sofrimentos
e humilhações eram o pão nosso de cada dia.
Depois, decidi entrar no seminário para melhor poder ir ao encontro de jovens
como aqueles, de mães como a minha que, estoiradas de cansaço, faziam das tripas
coração para conseguirem educar os filhos. E dizia cá para comigo: “Quando
for padre, vou ter o poder de Deus para salvar e pôr de pé.” Não me enganei,
pois não?
A miséria tornou-se para mim numa companheira
que nunca mais me largou, durante a vida toda. Enquanto fui prior de aldeia,
senti-me feliz, como um peixe na água. Até que um dia, o bispo me disse: “Joseph,
em Noisy-le-Grand há um acampamento, onde vivem algumas centenas de famílias
e faz lá falta um padre. Se quiseres, podes ir para lá.”
Como a menina está a ver, as coisas começaram por ser uma decisão de igreja.
Mal lá cheguei, dei-me de frente com um sem número de famílias que vinham de
todo o lado e que de comum só tinham a miséria que ali as reunia.
Por conseguinte, não formavam aquilo a que se chama uma aldeia, uma comunidade,
porque uma aldeia cria-se à volta de um conjunto de actividades que ligam as
pessoas entre si. Uma comunidade é um ideal que faz com que os homens vivam
em conjunto. Aqui, porém, nada havia que pudesse reunir as pessoas entre si,
a não ser a miséria, o sofrimento, a humilhação.
Eu vinha, pois com a intenção de me atolar no lamaçal de corpo e alma com eles,
de viver com eles, de partilhar as suas vidas, para tentar compreender o que
os animava, o que os fazia mexer.
Acabei por me dar conta que coisas a mais lhes esmagavam a vida. Para começar
não havia ali nem uma só escola. No entanto, ali viviam cerca de mil crianças,
das quais apenas um terço frequentava uma escola fora do acampamento. Só havia
três chafarizes para 250...260 famílias. Só havia uma retrete, à disposição
de todas as famílias. O acampamento era constituído por toda uma série de casas
abarracadas, uma espécie de arrecadações, em forma de meia-lua, feitas de fibrocimento,
com cinco metros e vinte de largo por oito metros e quarenta de comprimento.
Estas famílias precisavam, antes de mais, de
ser reconhecidas, precisavam de saber que eu lhes fazia confiança. Então, agarrei-me
com unhas e dentes, durante anos a fio, para poder garantir a mim mesmo, para
ter a profunda convicção de que elas podiam e deviam fazer tudo o que estava
ao seu alcance para sairem daquela situação.
As ditas “arrecadações” nem por sombras sabiam o que era o cimento,
não tinham luz nem água. Todos em conjunto, pusemo-nos a abrir valas, a cimentar,
a reforçar paredes, a fazer quartos individuais para as crianças, para que tivessem
menos frio no inverno e menos calor no verão, para que não se desidratassem.
Tudo isto foi uma aventura extraordinária com as famílias, a tal ponto que, a
um dado momento, começaram a dizer: “E se a gente fizesse uma associação,
se a gente se pusesse num grupo?” Pusemo-nos de acordo e criámos
uma associação a que demos o nome de “Aide à Toute Détresse”
(Ajuda em toda a desgraça). Isto ao princípio. Mais tarde demo-nos conta que
o nome escolhido não nos convinha, porque as famílias lutavam, punham-se de
pé e queriam, a todo o custo, sair daquela situação. Era uma aventura verdadeiramente
única. Num belo dia, quando falávamos da Revolução Francesa de 1789, ao descobrirmos
os “Cadernos de reclamações do quarto estado”, dissemos uns para
os outros: “E se nos chamássemos o Quarto Mundo? Já que somos pessoas
de pé, gente que quer libertar-se, famílias que recusam a miséria e que incitam
os outros a unir-se a elas neste combate.” Foi assim que foi criado o
Movimento ATD Quarto Mundo.
Claudine:
O que é que mudou daí para cá na vida, na situação das pessoas do Quarto Mundo?
Padre Joseph:
Uma coisa é certa, qualquer que seja o sítio onde a menina vá e encontre famílias
que conheceram o Movimento ou que caminharam com ele, todas lhe dirão: “No
fundo, com ATD nem sempre se chegava a um acordo sobre todas as coisas, mas
ATD, diga-se o que se disser, restituiu-nos a honra.”
Creio que permitimos a um povo desconhecido, rejeitado, posto de lado manifestar
que existia. Foi uma grande vitória. A segunda grande vitória foi quando jovens,
homens e mulheres pensaram que valia a pena viver com o quarto mundo, com os
mais pobres para lutar a seu lado, para nos libertarmos todos da miséria. Penso,
pois, que a segunda vitória das famílias foi a criação de um voluntariado permanente,
à maneira de ATD Quarto Mundo.
Mas nada disto se passou sem dificuldades. Por exemplo, quando cheguei ao acampamento
de Noisy-le-Grand, encontrei lá a sopa dos pobres, o banco alimentar. Infelizmente,
havia lá tudo o que ainda hoje existe para os pobres. Eu comecei por construir
uma biblioteca. Evidentemente, as pessoas não me compreendiam. Era uma iniciativa
que escapava não só à compreensão das famílias pobres, mas também à das pessoas
que nos rodeavam. As pessoas diziam: “Sejamos sérios. Se esta gente não
sabe ler, para que serve uma biblioteca? É uma história de malucos!”
A seguir, organizei cursos de dança e criei um ateliê de esteticista, para
dar oportunidade às pessoas de se valorizarem, para que, ao valorizarem-se a
si mesmas, pudessem, por sua vez, valorizar os outros. Isto foi uma aventura
levada da breca, porque tive que me bater contra tudo e contra todos.
Abrir um ateliê de esteticista, organizar cursos de dança, abrir uma biblioteca,
um jardim de infância, introduzir, progressivamente, o acesso à televisão, quando
na realidade a população vivia no meio dum lamaçal, tudo isto foi sentido por
muitos como um grande escândalo.
Por outro lado, criei, logo de início, um Instituto
de Investigação que, ao pôr à nossa disposição todo um conjunto de dados científicos,
nos serviria de lança de combate, de rampa de lançamento. Naquela altura, fazer
isto era muito importante. A seguir, veio o momento de atingirmos uma dimensão
internacional, ao conseguirmos entrar em relação com grandes instâncias como
a OIT, a UNESCO, a ONU, a UNICEF. Tudo isto foi feito de propósito. Pois precisávamos
de arranjar argumentos de defesa, para que ninguém nos pudesse acusar de sermos
uma pequena associação.
Para nós, o sermos uma pequena ou uma grande associação não era o mais importante.
O que mais contava para nós era encontrarmos apoio em todos os meios.
Claudine:
Quando se encontra com um membro do governo, o que é que lhe diz?
Padre Joseph:
O que lhe digo? Digo-lhe, antes de mais, que tem responsabilidades, que a miséria
é uma realidade absolutamente intolerável. Digo-lhe ainda que, em primeiro lugar,
deve começar por se interrogar fazendo a si mesmo três perguntas. Sendo a primeira: o que faço? A segunda: o que digo? E a terceira: o que penso? O que faço, digo e penso é, verdadeiramente, útil para os mais pobres?
Enquanto Movimento, tentamos levar os responsáveis políticos, sindicais, religiosos
e outros a fazerem a si mesmos as seguintes perguntas: Os nossos combates estão
verdadeiramente ao serviço de toda a gente? Ou não será que pomos de lado,
que ignoramos parte das famílias, parte das pessoas? As nossas
revindicações são, realmente, revindicações para o interesse de todos?
O mundo da miséria é o primeiro a sofrer
as consequências da conjuntura e até podemos dizer que, em cada época, aparecem
novos pobres que ocupam a linha da frente para serem vistos e achados. Mesmo
se isto é, em si, perfeitamente legítimo, não deixa, no entanto, de fazer com
que as famílias, que há muito receberam, de pais para filhos, a grande pobreza
em herança sejam, periodicamente, esquecidas, por assim dizer, postas de lado.
Então, temos que começar novamente a informar, a mostrar que estas famílias
continuam a existir, que desejam sair daquela situação e que, se não vão mais
longe, é porque não lhes reconhecemos direitos, é porque não nos organizamos
para fazer com que elas vejam, realmente, os seus direitos reconhecidos.
Se não tivermos cuidado com o que andamos a fazer,
as nossas democracias acabarão por viver sem nunca mais se ocuparem destas famílias,
acabarão por não fazer referência de espécie alguma à situação de miséria em
que vivem.
É por isso que as três perguntas que faço são sempre as mesmas. O que faz?
O que diz? O que pensa? Acha que isso serve realmente a causa dos mais pobres? Acha que isso lhes permite assumir responsabilidades e sair da situação de pobreza em que vivem?
Não há razão nenhuma, para que as crises económicas sejam mais desastrosas para as famílias desfavorecidas do que para as outras, pois também isto é uma questão de solidariedade. A pergunta a fazer aqui é: Será que aqueles que mais possuem são capazes de aceitar receber menos em proveito dos que menos têm? Aqui se encontra o nó da questão. Só acabaremos com a miséria no mundo, na medida em que aqueles que possuem aceitarem ter menos, por causa dos que nada têm. Não por razões de esmola, mas por razões de justiça. Aqui não se trata de uma questão de esmola. Aqui trata-se de justiça.
Claudine:
Não me pode falar um pouco das crianças do Quarto Mundo?
Padre Joseph:
Quando nos pomos a falar de crianças, temos sempre surpresas. Estou-me a lembrar
da Patrícia. O pai era coveiro e lá em casa era horrível, porque tudo estava
coberto de mortalhas. A toalha da mesa era uma mortalha e até os guardanapos
eram feitos de mortalhas.
A mãe tinha desaparecido e lá em casa, para além da Patrícia, havia mais seis
crianças.
À noite, deitava-se na cama do pai e prendia-se a ele com alfinetes, para que
a polícia a não pudesse levar, juntamente, com os irmãos e irmãs. Neste combate
contra a polícia, escondia-se com os irmãos e irmãs entre o telhado e o tecto
do jardim de infância e, com a minha cumplicidade, lá passavam a noite, para
que a polícia os não pudesse levar.
Tempos depois, quando tudo isto já tinha passado, a mãe voltou para casa. Foi
o sol que entrou. Muito mais tarde, ao encontrar a Patrícia já na vida adulta,
ela disse-me: “Quando eu era criança, foi maravilhoso, fui tão feliz.
Era o meu pai que aguentava com tudo.” As crianças são assim: servem-se
de tudo para fazerem uma festa, um pequeno momento de felicidade. Isto
enche os adultos de alegria, porque o reconhecimento destes pequenos momentos
de felicidade leva-os a procurarem dar grandes alegrias às crianças e, ao mesmo
tempo, dá-lhes confiança na vida, porque as crianças dão a impressão de não
estar marcadas, de não ter ódio. Sempre reparei que as crianças da miséria crescem
sem ódio, o que é, absolutamente, extraordinário. Talvez isso aconteça, porque
o ódio é demasiado pesado a carregar. Ou então, talvez aconteça, porque as crianças
reconhecem, e são muito sensíveis aos enormes esforços que os pais fazem por
elas. Talvez seja por esta razão que as crianças da miséria ficam tão agarradas
aos pais. Por vezes, há quem diga com grande espanto: “Mas como é feito
que não largam os pais, que não se vão embora?”
Até há quem fale, erradamente, de aglutinação, como se estivessem, irremediavelmente,
colados uns aos outros. Se as crianças da miséria ficam assim tão agarradas
aos pais, é porque se dão conta que o pai e a mãe, por causa delas, aguentaram
muita bofetada na vida, que o pai e a mãe foram para elas mais do que um escudo
de protecção, porque foi muito mais do que isso... é mais exacto dizer que
os pais lhes protegeram o coração envolvendo-o em gestos de amor.
Isto é uma coisa extraordinária!
Falar de crianças é evocar aqueles garotos que, numa tarde de Fevereiro em que
fazia um frio de rachar, foram vender os berlindes, porque era o aniversário
da mãe.
Fazia vários dias que não havia pão lá em casa, que não havia nada para
comer. Então vieram-me ver, mas como também eu não tinha nada para lhes dar,
fui pedir de porta em porta e consegui arranjar um pouco de pão seco para lhes
oferecer. Mas aquele dia era diferente. “É o aniversário da nossa mãe
e não temos nada para lhe oferecer!” Então, venderam os berlindes e com
o dinheiro compraram um pão que trouxeram, à tardinha, para casa. Isto são as
crianças. As crianças da miséria nem tão-pouco têm o direito de guardar nada
de seu, nada do que as faz felizes.
Também estou a ver o Nono, no meio da lama. Era horrível. Tinha chovido muito
e havia poças de água por todo o lado. Uma senhora fina, que entretanto tinha
chegado, trouxe-lhe um chocolate e o Nono foi ao encontro da irmã para o partilhar
com ela. Os garotos da miséria são assim.
Também eu era assim, quando era garoto: inventava, achava, procurava, roubava,
rapinava, amanhava-me, para que não houvesse muita fome lá em casa. Os garotos
da miséria são assim, são campeões, campeões do amor. É pena que não o reconheçamos.
Claudine:
E a propósito da escola?
Padre Joseph:
A escola é o templo do saber. As crianças da miséria gostam de ir à escola,
sonham com a escola. Mas, quando lá chegam, dão-se conta que ali não é o seu
meio. Ali, fazem-lhes perguntas que pouco ou nada compreendem; sucede que,
por vezes, compreendem as perguntas até de mais, porque levam água no bico. Ali,
ouvem comentários desagradáveis, que ferem a sua sensibilidade. Por vezes, durante
o recreio, ouvem os companheiros tratar a mãe ou o pai de preguiçosos,
sendo este comportamento, muitas vezes, aceite pelos professores. Assim, passado pouco tempo, acabam por se sentirem rejeitadas.
Sabe...também eu era assim. E continuo a sê-lo. Ainda hoje, tenho dificuldade
em pôr-me a caminho; sou lento da cabeça; arrasto os pés. Tudo isto
demora muito a esquecer.
É preciso muita paciência e, muitas vezes, não se é paciente com estes garotos.
É verdade que são, por vezes, barulhentos, pois lá em casa reina a desordem
e o caos. Não se pode dizer que não haja ordem, há uma ordem que é própria da
miséria, ou seja tudo é desordem, mesmo quando se tenta criar uma certa ordem.
Então, não prestam atenção às coisas, fazem barulho, têm uma linguagem um pouco
mais crua que os outros. Assim, há uma real dificuldade em compreendê-los. Estes
garotos que, ao princípio, se sentiam tão felizes por irem à escola, acabam,
ao fim de pouco tempo, por não quererem mais là voltar. Os pais sentem muito bem
que os filhos sofrem com esta situação e, então, acabam por não os obrigarem
a ir à escola. Se o professor não passar là por casa para ver o pai ou a mãe,
se a professora não vier ver o bairro onde moram estes garotos, então, não conseguirão
compreender coisas como ter piolhos na cabeça, como cheirar mal. Tudo
isto faz com que as crianças se sintam mal.
Foi por esta razão que eu lhes ensinava a dançar, para que se sentissem bem
no seu corpo, para que, quando entrassem na escola, pudessem mostrar aos outros
como é que se faz.
Claudine:
Sentem-se mesmo diferentes dos outros?
Padre Joseph:
Sim. Sentem-se diferentes, na medida em que lhes dizem, claramente, que são
diferentes. Sentem-se diferentes, porque, muitas vezes, vestem roupa que não
lhes serve, roupa que era de outros. A minha mãe vestia-me com a roupa dos pobres.
Quando tive o meu primeiro fato, ainda hoje me recordo, fui com a minha mãe
comprá-lo num armazém que pertencia a um Israelita, que tinha muita consideração
por ela e que a tratava com respeito. Foi assim que a minha mãe me comprou
o primeiro fato. As mangas do casaco tapavam-me completamente as mãos. “Ele
vai crescer e assim o fato vai servir-lhe durante dois ou três anos.”
Comentava ela. Quando se é criança da miséria, está-se sempre mais ou menos
bem vestido, mais ou menos apresentável. É evidente que acabamos por nos sentir
diferentes. E depois, também nos sentimos diferentes, porque os pais dos outros
dizem aos filhos para não frequentarem crianças como nós. Então acontece que
os outros nos dizem: “A minha mãe não quer, o meu pai disse-me para não
brincar contigo.” Estas coisas ficam cá dentro e não esquecem.
Claudine:
Pode dizer-me se os pais têm consciência da importância da escola para os filhos?
Padre Joseph:
As respostas são bastante contraditórias. Há pais que dizem aos filhos: “
Estás a ver. Eu não fiz o exame da quarta classe. Nunca fui à escola, não sei
ler nem escrever e, no entanto, não sou mais parvo que os outros e até consegui
furar na vida.” Mas, quando encaramos o êxito proclamado, é a miséria
que encontramos. Isto faz parte da gabarolice dos pobres. Na verdade, todos
os pais, lá bem no fundo, acham que é preciso que os filhos aprendam. Acontece,
porém que na escola sofreram grandes humilhações. Não se pode dizer que a escola
os quis humilhar ... mas a escola é para eles um outro mundo, qualquer coisa
que fica algures, fora do seu alcance... a escola é como a igreja....é
qualquer coisa que lhes fica de fora. O supermercado, embora lhes apareça como
qualquer coisa que não é para eles, sempre é mais vantajoso, porque aí encontra-se sempre
qualquer coisa para roubar. Na escola não há nada que se possa roubar e na igreja
ainda menos. (Risos)
Os pais sofreram muito com a escola, mesmo muito.
Aqui há tempos, pediram-me para escrever uma dedicatória num livro de poesia
e eu escrevi: “Tenho inveja.”
Tenho inveja de todos os que, ainda jovens, puderam descobrir Bethoven, Mozart
e outros, porque eu nunca o pude fazer. É por isso que sempre quis que as crianças
pobres aprendessem e conhecessem a arte, a poesia, a beleza. Não é a riqueza
que os pobres mais invejam nos ricos. Um dia um garoto disse-me : “Os
ricos vivem muito atafulhados... Com todas aquelas coisas que eles têm...devem
ser mesmo muito infelizes.”
Eu creio que é a ignorância que os torna ciumentos, porque lhes pesa no coração verem-se
apanhados por ela e sofrem com isso. Aqueles com quem tive a oportunidade de falar,
longamente, e que se confiaram a mim, revelando-me o que lhes ia na alma, todos
eles me disseram a mesma coisa: “A nós, nunca ninguém nos ensinou nada.
Somos tratados como bichos. Somos burros. Então, ficamos burros para sempre
e enterramo-nos na estupidez.”
Isto é muito grave. Sabe?
A injustiça da privação de coisas é horrível, mas a injustiça da ignorância
é, sem dúvida, o pior dos males que se pode fazer a uma pessoa. É uma injustiça
sem medida, porque impede as pessoas de participarem na vida do mundo, no conhecimento
dos seres, das coisas, dos acontecimentos, de tudo. É privar as pessoas do conhecimento
de Deus. É horrível, horrível, horrível...É uma extrema injustiça, é a maior
das injustiças.
É por isso que o Movimento sempre lutou, que os voluntários lutam, para que
as crianças recebam o mais que podem, para que aproveitem e se desenvolvam,
para que, amanhã, possam servir-se de um espírito capaz de ver claro, de uma
linguagem compreensível e, assim, se sintam existir como pessoas, perante os
outros.
Claudine:
Têm falta de estabilidade, de segurança?
Padre Joseph:
É óbvio. Eu próprio tenho falta de segurança... Mesmo se não o parece, fiquei
tímido, pois tenho sempre a impressão de que os outros são superiores a mim, que
fazem e falam melhor, que sabem mais do que eu. Quando a vida das famílias
se encontra, constantemente, rebaixada, o sentimento de insegurança é inevitável.
Nunca ninguém lhes pede conselho, nem tão-pouco a opinião sobre as coisas que
lhes dizem respeito. Estou a lembrar-me de uma mãe que me dizia: “É curioso.
Conheço muito bem os meus filhos e, no entanto, quando me foram tirados, ninguém
me perguntou onde é que poderiam ser colocados, a quem poderiam ser confiados.
Ninguém me perguntou por nada, mas eu conheço os meus filhos muito bem.”
É assim. O pobre é considerado, logo à primeira vista, como ignorante e, por
conseguinte, como sendo incapaz de exprimir seja o que for. Por conseguinte,
creio que a ignorância é a pior das coisas. Repare que os capelães das
prisões revelam que a maioria dos presos não sabe ler nem escrever e que muitos
deles vêm do mundo da miséria.
Claudine:
A vossa acção junto das crianças do terceiro e do quarto mundo é idêntica?
Padre Joseph:
Penso que a maneira de abordar a infância é essencialmente a mesma. As crianças,
sejam elas deste ou daquele país, desta ou daquela cultura, trazem nelas a mesma
sede profunda de justiça, a mesma necessidade de ternura, de curiosidade; manifestam,
em toda a parte, um grande desejo de saber, de tocar nas coisas e, também, uma
grande necessidade de serem compreendidas e respeitadas.
Também no terceiro mundo, as crianças mais pobres, que encontramos, precisam
de ser acompanhadas, no que diz respeito à aquisição do saber. Foi por isso
que criámos Bibliotecas de Rua. Os voluntários partem para os bairros, uns
levam consigo livros para partilharem com os crianças o que sabem, outros levam
um computador que é posto à disposição das crianças, no seu próprio meio. Como
dizia, com orgulho, um garoto de Nova Iorque: “Aqui está-se melhor do que
na sétima avenida, porque nós até temos um computador, no meio da nossa rua.”
No terceiro mundo, criámos aquilo a que chamamos Bibliotecas do Campo. Onde encontramos um espaço, aí nos instalamos com livros.
Montamos os cavaletes, para que os garotos possam desenhar.
Proporcionamos meios de expressão, como por exemplo, a criação de brinquedos. Tudo é feito, no momento. A nossa ideia é a de estarmos sempre o mais perto possível das pessoas. À nossa volta, há sempre uma revoada de rapazes e raparigas ...é extraordinário...
Um dia, encontrava-me eu em Haiti, quando ouvi um jovem contar a história do Capuchinho Vermelho a um grupo de garotos que andavam por ali e que o escutavam com sofreguidão. Isto nos confins de uma colina, a dois quilómetros de distância de toda e qualquer habitação. E via-se o lobo a sair do esconderijo...era uma coisa genial...formidável...(risos)
Os jovens do terceiro mundo sentem que o saber é coisa importante e procuram comunicá-lo aos irmãozitos, aos amigos. Apetece-me dizer que no Ocidente estamos empanturrados de saber, fartos de escola, fartos de universidade e acabamos por não nos darmos conta da riqueza que isso representa; infelizmente não temos a paixão de transmitir o saber, até porque consideramos, por vezes, o saber como uma coisa própria dos burgueses, o que é completamente ridículo. O saber é universal, não é pertença exclusiva de uma classe social; o saber pertence à humanidade. No Ocidente, há uma espécie de barragem e os jovens, que poderiam transmiti-lo a outros, acabam por guardá-lo só para si, no maior dos egoísmos, como uma afronta.
Penso que o saber se tornou numa coisa banal; não sei como explicar isto, mas há como que um sentimento de enjoo em relação ao saber. Quem sabe julga-se superior e já não consegue aperceber-se de que o saber que tem foi adquirido, porque outros mataram a cabeça e se deram ao trabalho de o transmitir. Os que frequentam a universidade nem sempre se dão conta (o que é grave) de que, na realidade, o saber que têm foi obtido à custa dos sacrifcios impostos aos operários, ao mundo do trabalho, a todos os que tiveram que se contentar com a aprendizagem de um ofício ou com o exame da quarta classe. Há como que uma inconsciência e é por isso que o Movimento tenta sensibilizar os jovens. Descobri estas coisas, em Maio de 1968, aquando das manifestações dos estudantes. Nessa altura, os estudantes passavam noites inteiras a discutir. Eu olhava para aqueles jovens, cheios de inteligência, com possibilidades consideráveis ao seu alcance e dizia para comigo: Estas discussões não levam a lado nenhum...São uma perda de tempo, quando nos bairros pobres há milhares de crianças que nem tão-pouco sabem ler, nem escrever. Foi então que inventei “o saber na rua.” Os estudantes têm que vir ensinar o que sabem, o que aprenderam; têm que partilhá-lo com os que, infelizmente, nunca terão possibilidades de frequentar a universidade, que nem tão-pouco terão a possibilidade de aprenderem um ofício, de fazerem uma formação. Então, fui, de bar em bar, conversar com eles e consegui convencer alguns a juntarem-se a nós. Não foi nada fácil. Eu queria que aquele que sabe ensinasse aquele que não sabe, pois isto é da responsabilidade de todos os que sabem. Quem sabe possui um saber que também é devido aos outros e, por conseguinte, tem a obrigação de o partilhar com outros. Mesmo se a aquisição do saber implica um esforço pessoal, isso não impede que o saber lhe veio graças ao dom de outros. Um jovem de 17 anos que trabalha numa fábrica também faz esforços, sem que a oportunidade de, um dia, vir a ter um diploma, uma licenciatura, um doutoramento lhe venha a ser dada . O conhecimento não é um privilégio a conceder a alguns; é um dom a fazer a todos e, por conseguinte, quem o tem deve pensar em quem o não tem.
Se tivéssemos posto os estudantes em contacto com a miséria, com as camadas mais pobres da população, com os que sofrem; se lhes tivéssemos mostrado tudo o que podem fazer...Se os estudantes tivessem posto as suas manifestações ao serviço dos pobres; se tivessem ido ao encontro dos bairros pobres da região de Paris para manifestarem, participando nas Bibliotecas de Rua, trazendo um computador ou um instrumento de laboratório, pois bem, penso que as suas manifestações teriam ganho um outro significado; creio, ainda, que as camadas populares, o mundo operário, as pessoas que vivem com dificuldades se teriam posto, interiramente, de acordo com eles, a seu lado, e tê-los-iam apoiado noutros termos, porque teriam descoberto que entre a universidade e o mundo dos pobres, o mundo da miséria não existe um fosso intransponível; teriam descoberto que é a mesma humanidade que se bate pela mesma causa: a causa da liberdade, a causa do respeito de uns pelos outros.
Tudo isto é um mundo de coisas. Sabe, isto de lutar contra todas as injustiças que são feitas é uma coisa formidável. Vale a pena dar uma parte de si, uma parte da vida, ou até mesmo a vida inteira por isto.
Claudine:
Que gostaria de dizer aos jovens de hoje?
Padre Joseph:
Pois bem, eu diria: Não olhes para ti; olha para os outros. Não penses muito
em ti; pensa nos outros. Não te batas muito por ti; bate-te pelos outros.
E, se fazes parte dos que rezam, compromete-te, empenha-te; não te limites
a pertencer a uma comunidade que não resplandece, que não desabrocha. Desabrocha.
Rebenta.
Um jovem é feito para desabrochar. Se não rebenta, não vale a pena ser jovem,
não é verdade?
A menina é jovem. Se não desabrochar agora, diga-me lá para que serve a sua
juventude? Não é quando tiver a minha idade, que você vai desabrochar.
Será tarde de mais, pois já não terá nem a força, nem a imaginação necessárias.
Claudine:
O que é que se ganha, quando se rebenta? Quando se desabrocha?
Padre Joseph:
Ganha-se muita coisa formidável! Ganha-se um extraordinário encontro com os
outros! Quando você vai ao encontro dos outros, acaba, inevitavelmente, por
dar, por receber e, por conseguinte, por existir. É formidável existir, saber
que existimos, que muitos contam connosco, que somos importantes, não para este
ou para aquele, mas para muitos. No fundo, a felicidade implica transparência
e é, por conseguinte, um deslumbramento que irradia. A verdadeira alegria implica
sempre a alegria dos outros. É a isto que um jovem deve aspirar para si, pois
daí depende o interesse da sua vida. Se não for assim, diga-me lá que interesse
pode ter a vida?
Na verdade, o jovem ainda não tem responsabilidades, ainda não lhe foram confiadas
responsabilidades políticas, ou económicas. Ao contrário do que se diz, o jovem
não tem poder. Em compensação tem o poder de fazer mexer as coisas, porque traz
nele a esperança e o entusiasmo. Então, pode pôr o mundo a mexer-se, em andamento,
porque o jovem pode levar os adultos a descobrirem que não aceita o mundo
como lho apresentam. Pode levá-los a descobrir que o mundo não é nem triste,
nem feio, nem coisa nehuma do género, mas sim que o mundo está disponível, aberto
a novas maneiras de agir, de organizar. Não há homem nenhum, mulher nenhuma
que, no mais profundo de si mesmo, não sinta necessidade de se dar e, por conseguinte,
de ir ao encontro de alguém a quem possa dar-se e de quem possa receber. Creio
que aqui se encontra o fundamento, o alicerce de toda a nossa humanidade.